A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) decidiu revogar a prisão do deputado Rodrigo Bacellar (União), presidente afastado da Casa, confrontando diretamente a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, que havia determinado a detenção do parlamentar sob suspeita de vazar informações de operação da Polícia Federal ligada ao Comando Vermelho.
Dos 65 deputados presentes, 42 votaram pela soltura, 21 defenderam a manutenção da prisão, houve duas abstenções e quatro ausências. O quórum mínimo era de 36 votos, facilmente superado pela base de apoio de Bacellar, que se articulou nos bastidores desde a semana passada.
Bacellar foi preso no dia 3 de dezembro na Operação Unha e Carne, desdobramento da Operação Zargun, que levou à prisão do ex-deputado TH Joias, acusado de intermediar compra e venda de drogas, armas e equipamentos para o Comando Vermelho. Para a PF, diálogos e imagens trocados na véspera e no dia da operação indicam que o presidente da Alerj teria sido avisado com antecedência e ajudado a obstruir as investigações.
A votação desta segunda-feira (8) ocorreu sob queixas de falta de transparência. Deputados relataram ter tido acesso apenas ao decreto de prisão de Moraes, sem os autos completos da PF. Mesmo assim, a maioria decidiu se amparar na leitura de que a Constituição garante ao Legislativo a palavra final sobre a prisão de seus membros, inclusive em casos de flagrante de crime inafiançável, entendimento estendido às assembleias estaduais pelo STF em 2019.
No campo político, o resultado expôs o alinhamento da direita fluminense em torno de Bacellar. Todos os deputados presentes do União Brasil votaram “sim”. PL, PP, Republicanos, Solidariedade, Avante, PRD, PMN, PMB, Podemos, PDT e Agir entregaram votos majoritariamente favoráveis à revogação da prisão.
Houve fissuras, porém, no próprio PL do governador Cláudio Castro. A sigla liberou a bancada, mas recomendou voto pela soltura. Márcio Gualberto e Douglas Gomes foram vozes dissonantes ao apoiar a manutenção da prisão, e Gomes relatou ter sofrido pressão, sem citar nomes. Dois deputados, Delegado Carlos Augusto (PL) e Rafael Picciani (MDB), preferiram se abster.
Carla Machado (PT) foi a única voz dissonante entre os partidos de esquerda e votou pela soltura. Todo o PSOL, o PCdoB e o PSB defenderam a manutenção da prisão, assim como a maioria da bancada do PT e parte do PSD ligado ao prefeito Eduardo Paes, que também rejeitaram o relaxamento da medida.
A lista nominal divulgada pela própria Alerj registra os 42 que votaram “sim”, os 21 que votaram “não” e os dois que se abstiveram, espelho de uma divisão que passa por partidos, pelo governo estadual e pelas articulações para 2026. As imagens com a relação completa tendem a circular como “marcação” pública de quem salvou ou não o presidente da Casa.
No discurso, a direita tentou descolar Bacellar de TH Joias. Alexandre Knoploch (PL) insistiu que as provas são frágeis, acusou hipocrisia da esquerda e afirmou que muitos parlamentares, inclusive oposicionistas, mantiveram relações cordiais com o ex-deputado até sua prisão. Índia Armelau (PL) comparou a situação de Bacellar à do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), falando em perseguição e injustiça.
A oposição reagiu com dureza. Carlos Minc (PSB), Dani Monteiro (PSOL), Elika Takimoto (PT) e Luiz Paulo (PSD) defenderam que os elementos apresentados pela PF são graves e apontam para infiltração do crime organizado nas instituições fluminenses. Para esse grupo, a revogação da prisão tem forte componente corporativo, de autoproteção do parlamento.
Nos bastidores, o nervosismo cresce com o conteúdo dos celulares apreendidos com Bacellar, além dos R$ 90 mil em dinheiro vivo encontrados em seu carro. Analistas enxergam ali não apenas pistas sobre o vazamento da operação, mas também sobre alianças eleitorais e relações espúrias entre poder político, milícias e facções.
O passo seguinte é formal. A Alerj vai publicar a resolução no Diário Oficial e comunicar o STF. Embora a Casa afirme que a deliberação tem efeito imediato, caberá a Moraes chancelar a soltura e definir medidas cautelares alternativas, como tornozeleira eletrônica, retenção de passaporte, proibição de contato com outros investigados, recolhimento noturno e até afastamento de funções públicas.
Não há consenso sobre o retorno de Bacellar à presidência da Alerj, cargo para o qual foi eleito por unanimidade no início do ano, com votos da direita e da esquerda. A decisão de Moraes que decretou a prisão trouxe no mesmo ato o afastamento da presidência, e parlamentares divergem se esse ponto está atrelado à prisão ou se vale independentemente da situação carcerária.
Enquanto a disputa jurídica se desenrola, a investigação segue intacta no STF. Bacellar continua respondendo por suspeitas de integrar organização criminosa, lavar dinheiro e obstruir a Justiça, ao lado de TH Joias e outros investigados. A defesa afirma que o deputado não teve qualquer participação no vazamento e que apenas respondeu a contatos de um colega de parlamento.
O episódio, porém, já produziu estragos políticos. A imagem da Alerj sai ainda mais desgastada, o governo Cláudio Castro é empurrado para o centro da crise, e a direita fluminense, que via em Bacellar um dos nomes fortes para 2026, entra em modo de contenção de danos. Em paralelo, cresce a percepção de que o futuro do bolsonarismo no Rio, e de uma parcela da direita nacional, pode estar guardado nos dados extraídos dos celulares do presidente afastado da Assembleia.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




