Os Estados Unidos registraram em 2025 o maior número de casos de sarampo desde o ano 2000, quando a doença havia sido declarada eliminada do país. A explosão da doença coincide com a gestão de Donald Trump e com a nomeação de Robert F. Kennedy Jr. para a Secretaria de Saúde — dois nomes ativamente ligados ao discurso antivacina. O surto já atinge 38 estados e levanta temores de que o país perca o status internacional de eliminação da doença, em um vexame sanitário sem precedentes.
Ao todo, 1.288 pessoas foram diagnosticadas com sarampo este ano, sendo 92% não vacinadas ou com status vacinal desconhecido. O epicentro está no oeste do Texas, em uma comunidade menonita, mas os casos já se espalharam pelo Novo México, Oklahoma e dezenas de outros condados. Especialistas alertam que, se o surto não for contido até janeiro, os EUA deixarão de ser reconhecidos como país livre de circulação contínua do vírus.
As informações são do jornal americano The New York Times, edição desta quarta-feira (9).
A Organização Mundial da Saúde (OMS) já havia alertado para uma explosão global do sarampo. O fenômeno atinge também o Canadá, o México e grande parte da Europa, onde as taxas de vacinação seguem em queda desde a pandemia de Covid-19. Mas o caso americano chama atenção por se tratar de um país com estrutura sanitária robusta e histórico de campanhas bem-sucedidas de imunização.
RFK Jr. e o desmonte institucional
A crise é agravada pelas escolhas do governo Trump. Nomeado secretário de saúde, Robert F. Kennedy Jr. minimizou o surto e preferiu promover “tratamentos alternativos” sem comprovação científica, sabotando campanhas de vacinação. Além disso, o departamento federal de saúde cortou verbas de combate a surtos locais, enfraquecendo ainda mais a resposta estatal.
Para o epidemiologista William Moss, da Universidade Johns Hopkins, “o sarampo virou um termômetro do colapso institucional”. Já Jennifer Nuzzo, da Universidade Brown, define a situação como “um constrangimento nacional”. A avaliação é compartilhada pelo Dr. Adam Ratner, da Universidade de Nova York: “Perder o status de eliminação seria o símbolo mais claro de como o discurso público sobre vacinas foi corroído.”
Consequências podem ser duradouras
O sarampo é altamente contagioso e pode levar à morte, especialmente entre crianças. Neste ano, duas crianças e um adulto não vacinados morreram — as primeiras mortes por sarampo nos EUA em uma década. Além dos efeitos imediatos, o vírus provoca “amnésia imunológica”, comprometendo o sistema imunológico e expondo o corpo a outras doenças já combatidas.
As taxas de vacinação entre crianças em idade escolar seguem abaixo dos 95% recomendados pelo CDC. No condado de Gaines (Texas), centro do atual surto, apenas 82% da população recebeu a vacina tríplice viral.
Uma pandemia política
Mais do que uma crise sanitária, o surto reflete um colapso político. A politização das vacinas durante a era Trump criou um terreno fértil para a desinformação. O resultado é um país vulnerável não apenas ao sarampo, mas a outros retrocessos epidemiológicos.
A comparação com 2019, quando o país também quase perdeu o status de eliminação, mostra o que mudou: naquele ano, mandatos agressivos de vacinação evitaram o pior. Hoje, a omissão e a politização da saúde pública colocam os Estados Unidos diante de uma epidemia evitável — e de uma crise institucional autoinduzida.
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Negacionismo
O retorno do sarampo aos EUA sob Trump é mais do que um alerta sanitário: é a síntese de um modelo que desvaloriza a ciência, precariza o Estado e coloca interesses ideológicos acima da vida. A saúde pública virou refém do negacionismo político. Se nada mudar, o sarampo será apenas a primeira de muitas doenças a ressurgir.
Brasil e Curitiba preocupados com casos de sarampo no exterior
No Brasil, a situação ainda está sob controle, mas os sinais de alerta já foram acionados. Com o avanço do surto de sarampo na Bolívia — país que já contabiliza 60 casos confirmados, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde —, a Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba reforçou a importância da vacinação. Embora não haja registros recentes no Paraná, a proximidade geográfica e o histórico de surtos anteriores motivaram a adoção de medidas preventivas, como a aplicação da “dose zero” em bebês de 6 a 11 meses.
“É uma situação que exige vigilância total”, afirmou a secretária municipal da Saúde, Tatiane Filipak. Em 2019, 96% dos casos de sarampo em Curitiba atingiram jovens e adultos entre 15 e 49 anos — parcela da população que, em muitos casos, não completou o esquema vacinal ou sequer tem registro da imunização.
A cobertura vacinal em crianças pequenas está próxima da meta, mas a lacuna entre adolescentes e adultos preocupa especialistas. O risco, segundo o alerta das autoridades, é que uma eventual reintrodução do vírus encontre brechas vacinais suficientes para provocar surtos urbanos. Em tempos de politização da ciência e negligência sanitária em países vizinhos, a imunização se torna mais que um ato individual — é uma responsabilidade coletiva.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




