O Ocidente voltou a olhar para a família Pahlavi como alternativa política para o Irã em colapso, apostando que a restauração da monarquia produziria um regime mais dócil aos interesses de Washington, Londres e Tel Aviv, num momento em que o sistema teocrático de Teerã enfrenta a mais grave crise de legitimidade desde 1979.
A aposta ganhou corpo após declarações de Reza Pahlavi, filho do último xá, que se apresentou como “unicamente posicionado” para liderar uma transição e previu o fim do regime liderado pelo aiatolá Ali Khamenei. Em Washington, Pahlavi pediu apoio externo “direcionado” para acelerar o colapso do aparato repressivo, sobretudo da Guarda Revolucionária.
O discurso reaviva uma velha tentação geopolítica. Para setores do establishment ocidental, a memória do Irã pré-revolução islâmica ainda funciona como promessa de estabilidade estratégica, acesso energético e contenção regional. Não por acaso, Pahlavi fala em transição “ordeira”, referendos futuros e evita descartar a restauração monárquica, deixando aberta a porta para uma solução palatável ao Ocidente.
Protestos, repressão e o cálculo externo
Desde o fim de dezembro, protestos de massa varreram o país, impulsionados por crise econômica e repressão política. Organizações de direitos humanos falam em milhares de mortos após operações brutais das forças de segurança. O governo respondeu com apagão quase total da internet, sinal clássico de repressão em larga escala.
Nesse cenário, a retórica externa se intensificou. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chegou a prometer que “a ajuda está a caminho” caso as execuções continuassem, mas recuou diante do risco de uma guerra regional aberta. Ainda assim, a sinalização política permaneceu: pressão seletiva, sanções e estímulo a uma liderança oposicionista aceitável.
É nesse vácuo que Pahlavi se move, oferecendo ao Ocidente uma figura conhecida, educada no exílio e alinhada a valores liberais, ainda que sem base orgânica comprovada dentro do país.
A sombra do passado autoritário
A estratégia, porém, carrega um paradoxo histórico. O pai de Reza, Mohammad Reza Pahlavi, foi derrubado justamente por protestos populares contra autoritarismo, tortura e concentração de poder. Hoje, gritos de “vida longa ao xá” reaparecem em algumas manifestações, mas analistas alertam que isso pode expressar mais o desespero diante do beco sem saída político do que um desejo real de retorno à coroa.
O cineasta dissidente Jafar Panahi reforça esse alerta. Para ele, o regime de Khamenei não conseguirá manter o controle após o massacre recente, mas o formato do que virá depois deve ser decidido pelos próprios iranianos. Panahi reconhece que o nome Pahlavi emergiu nas ruas, mas defende unidade na transição e um referendo soberano sobre o modelo de governo.
Monarquia como atalho geopolítico
Nos bastidores diplomáticos, a restauração monárquica aparece menos como projeto democrático e mais como atalho geopolítico. Um Irã “normalizado” sob liderança pró-ocidental reduziria tensões no Golfo, isolaria aliados regionais do regime atual e atenderia interesses estratégicos de EUA, Reino Unido e Israel.
O risco é repetir um roteiro conhecido no Oriente Médio, onde soluções desenhadas fora do país geram estabilidade aparente no curto prazo e crises profundas no longo prazo. A história iraniana mostra que regimes impostos ou tutelados tendem a produzir novas explosões sociais.
O dilema iraniano
O Irã vive um momento de ruptura. O colapso do regime parece provável, mas a forma dessa transição permanece aberta. A monarquia, ainda que reciclada em discurso democrático, carrega o peso do passado. A teocracia, por sua vez, perdeu a capacidade de governar pelo consenso.
Entre o cálculo estratégico do Ocidente e a luta real das ruas iranianas, está o dilema central: quem decide o futuro do país. Se a resposta vier de fora, o preço pode ser mais alto do que a promessa de estabilidade sugere.
Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




