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PDT jura independência, mas mantém Previdência com aliado de Lupi

No tabuleiro da política brasileira, a coerência muitas vezes se torna luxo. O PDT, que agora jura independência em relação ao governo Lula, permanece com um de seus quadros mais próximos comandando o Ministério da Previdência. Sai Carlos Lupi, entra Wolney Queiroz. Troca de cadeiras, mas não de DNA.

O ex-ministro Lupi, acuado por escândalos no INSS, pediu exoneração. Mas deixou como sucessor ninguém menos que seu número dois — uma escolha pessoal do presidente Lula, sem consulta prévia à bancada federal do partido. Na prática, o PDT segue dentro do governo até a medula. Fora, apenas na retórica.

A movimentação espelha o manual não escrito de Brasília: declarar independência enquanto se usufrui do poder. Não por acaso, o PDT entra no mesmo balaio de siglas como PP, União Brasil e Republicanos. Todos têm ministérios, todos dizem não ser da base — mas, curiosamente, ajudam o Planalto a aprovar as pautas econômicas e operam contra quando convém — e com anuência.

O líder do PDT na Câmara, deputado Mário Heringer (MG), anunciou que a legenda está fora da base. Quer discutir alternativas à esquerda para 2026, como fizera com Ciro Gomes em 2022. Mas a fala contrasta com o gesto de manter o controle da Previdência, uma das pastas mais sensíveis do governo federal.

“Estamos em posição de independência”, afirmou Heringer. Já o deputado Dorinaldo Malafaia (PDT-AP) tentou explicar a contradição: “Continuamos como base nas discussões macro, mas iniciamos uma reflexão sobre 2026”.

Em bom português: o PDT está dentro e fora ao mesmo tempo — uma espécie de “independência de conveniência”.

A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT), iniciou conversas para convencer a bancada pedetista para evitar ruídos que possam prejudicar a reeleição de Lula em 2026. O primeiro contato foi com o próprio Heringer. Novas reuniões estão previstas para os próximos dias.

Fontes ouvidas pelo Blog do Esmael indicam que o Palácio do Planalto não vê com bons olhos a postura dúbia do PDT, sobretudo num momento em que o governo tenta consolidar apoio a pautas estratégicas como PEC da Segurança, Isenção do IR e fim da jornada 6×1.

A saída de Lupi do ministério foi precedida pela operação da Polícia Federal no INSS. Embora o ex-ministro não tenha sido denunciado, defendeu a permanência do então presidente do instituto, Alessandro Stefanutto — que, este sim, virou alvo da PF.

A demissão caiu mal dentro do partido. Lupi e aliados interpretam que Lula cedeu à pressão midiática pela faxina. A nomeação de Wolney Queiroz, contudo, foi vista como uma forma de manter a “herança lupiísta” intacta dentro da pasta.

O ex-presidenciável Ciro Gomes não participou da reunião que selou a “independência” do PDT. E, até o momento, mantém silêncio público sobre a nova postura do partido. Nos bastidores, Ciro estaria desconfortável com a incoerência estratégica: ou se rompe de vez ou se assume na base.

Esse vácuo no comando político da legenda pode custar caro. Sem unidade interna e sem narrativa clara, o PDT arrisca se transformar num puxadinho do governismo com verniz oposicionista — ou vice-versa.

O movimento do PDT é sintomático da crise de identidade da esquerda tradicional brasileira. O partido quer distância de Lula, mas não do poder. Quer lançar alternativa em 2026, mas teme perder espaço nos cofres da Esplanada. É uma dança com o espelho.

Mais do que rupturas reais, o que se vê é a institucionalização da ambiguidade. E, no fim, talvez o PDT esteja mais próximo de Ciro Nogueira do que de Ciro Gomes.

Dos Estados Unidos, onde participa um evento da LIDE, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) foi enfático e verdadeiro: “Podem oferecer 50 ministérios, que não estaremos no palanque com Lula e o PT.”

No entanto, Nogueira não esclareceu que o União Progressista não irá apresentar candidatura alternativa ao Planalto. Ou seja, a nova superfederação ficará independente nas eleições presidenciais — possivelmente o mesmo caminho que o PDT pretende palmilhar no ano que vem.

Resumo da ópera: a tal ‘independência’ do PDT é uma mudança leopardiana — tudo muda para que tudo continue exatamente como está.

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Novo ministro Wolney Queiroz (direita) recebendo o ex-deputado Ricardo Gomyde (esquerda), em Brasília. Foto: reprodução/IG

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