Paranaguá, sede do principal porto do Paraná, entrou esta semana no mapa mais duro do Atlas da Violência 2026: o município aparece entre as cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes e maior letalidade em 2024, com 76 homicídios estimados e taxa de 50,7 mortes por 100 mil habitantes.
O dado divulgado na terça-feira (26) desloca a cidade do discurso confortável da eficiência logística para uma cobrança concreta de segurança pública. Paranaguá movimenta riqueza para o Paraná e para o país, mas o Atlas mostra que a vida urbana no litoral carrega uma conta que não cabe em propaganda de porto.
A Portos do Paraná fechou 2024 com recorde histórico de 66.769.001 toneladas movimentadas, alta de 2,1% sobre 2023, segundo balanço oficial divulgado em janeiro de 2025. O mesmo território que bateu recorde no cais apareceu no Atlas com 74 homicídios registrados, 2 homicídios ocultos e 76 homicídios estimados.
O Atlas da Violência 2026 é produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). O relatório usa dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde (MS), e incorpora estimativas de “homicídios ocultos”, nome dado a mortes violentas que podem ter sido classificadas sem definição clara de intencionalidade.
Esse cuidado metodológico importa porque o número não é boletim policial bruto. O Atlas combina registros oficiais e estimativas para reduzir o efeito das Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI), quando o Estado registra a morte violenta, mas não esclarece se houve intenção criminosa.
No Brasil, o Atlas registrou oficialmente 42.590 homicídios em 2024, taxa de 20,1 por 100 mil habitantes. Quando a estimativa de homicídios ocultos entra na conta, a referência nacional usada no ranking dos municípios sobe para 23,4 por 100 mil. Paranaguá ficou acima do dobro desse patamar estimado.
O relatório também mostra que a violência letal não se espalha de forma uniforme pelo país. Em 2024, metade dos homicídios ocorreu em apenas 99 municípios, cerca de 1,8% das cidades brasileiras com informação válida. Entre os municípios médios, grupo de Paranaguá, a taxa média foi de 24,1 por 100 mil habitantes.
Paranaguá aparece nesse recorte como problema estadual, não como nota desimportante do litoral. A cidade tem porto, turismo, comércio, trabalhadores em circulação diária e bairros que dependem de presença pública permanente. A taxa de 50,7 por 100 mil transforma a segurança em pauta de governo, não em estatística isolada.
O número não autoriza culpar automaticamente uma gestão municipal, uma força policial ou um governo por toda a violência registrada. Mas autoriza uma pergunta simples: qual é o plano específico para reduzir homicídios em Paranaguá, com meta, orçamento, efetivo, investigação, prevenção para jovens e transparência pública?
O governador Ratinho Junior (PSD) e a Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp) têm usado dados estaduais para sustentar uma narrativa de queda da criminalidade. Em janeiro, o governo informou que o Paraná alcançou em 2025 taxa de 9,9 homicídios dolosos por 100 mil habitantes, o menor patamar da série estadual.
A comparação exige cautela, porque o Atlas trabalha com 2024, outra base e metodologia própria. Ainda assim, a distância entre a média estadual divulgada pelo governo em 2025 e o retrato de Paranaguá em 2024 obriga o Palácio Iguaçu a explicar o que funciona no Estado e o que ainda falha no litoral.
O governo também divulgou queda de criminalidade durante o Verão Maior Paraná 2025/2026 no litoral, com redução em furtos, roubos e homicídios no período da temporada. O recorte sazonal ajuda, mas não substitui política permanente para uma cidade que aparece no Atlas com uma das maiores taxas entre municípios acima de 100 mil habitantes.
A convocação prevista de 5.690 profissionais da segurança pública em 2026 é outro dado que precisa sair do anúncio genérico e chegar ao litoral com critério verificável. O governo informou que a ampliação busca reforçar efetivo e capacidade de atendimento em todas as regiões do Estado. Paranaguá precisa aparecer nessa distribuição.
Para a eleição estadual de 2026, o Atlas tira o litoral do rodapé dos programas de governo. Quem disputar o Palácio Iguaçu terá de dizer se vê Paranaguá apenas como vitrine portuária ou como cidade real, com jovens expostos à violência, famílias enterrando vítimas e trabalhadores tentando viver ao lado da riqueza que passa pelo cais.
O Porto de Paranaguá continuará sendo peça estratégica da economia paranaense. A pergunta que o Atlas deixa sobre a mesa é se a prosperidade do corredor logístico será acompanhada por uma política pública capaz de reduzir mortes no território que sustenta essa engrenagem.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




