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Paraná não é um estado para amadores, mesmo

O Paraná nunca foi terra fácil.

Desde o império até os dias de hoje, o estado parece testar os limites da confiança, da utopia e da tragédia.

Três episódios separados por mais de um século revelam que aqui a linha entre sonho e desastre é sempre tênue.

O primeiro deles remonta ao século XIX, quando o imperador Dom Pedro II apoiou a criação da Colônia Cecília, uma experiência anarquista idealizada pelo italiano Giovanni Rossi em Palmeira.

O projeto pretendia ser um modelo de sociedade igualitária, sem patrões nem patrulhas morais.

Mas a utopia durou pouco.

Um dos colonos encarregado das finanças fugiu com o dinheiro coletivo, fruto da colheita anual, deixando para trás o sonho e a vida dura.

A comunidade se dissolveu em meio a doenças, fome e disputas internas.

A lição ficou: até a utopia precisa de contabilidade.

Mais de um século depois, outro episódio de confiança rompida abalou o interior do estado.

O empresário Celso Fruet, dono de uma cerealista, é acusado pelo Ministério Público de aplicar 124 golpes, causando prejuízo de R$ 20 milhões a produtores rurais.

Mesmo após vender a empresa, ele continuou recebendo grãos e pagamentos sem repassar o dinheiro.

A cena se repete: gente simples enganada, patrimônio perdido, a justiça correndo atrás do prejuízo.

Fruet fugiu e é considerado foragido.

Seu caso virou símbolo do colapso moral que ronda o agronegócio paranaense.

O terceiro caso é ainda mais sombrio.

Quatro homens saíram de São José do Rio Preto, em agosto, rumo a Icaraíma (PR), para cobrar uma dívida.

Foram encontrados mortos, com marcas de tiros, enterrados numa área rural.

A polícia aponta pai e filho como principais suspeitos, ambos foragidos.

Uma negociação mal resolvida terminou em execução.

A tragédia expôs o submundo da cobrança por conta própria, onde a lei cede lugar ao faroeste.

Da Colônia Cecília ao caso Fruet, passando pelo massacre de Icaraíma, o Paraná mostra que não é um estado para amadores.

Aqui, o fio entre a confiança e a ruína é sempre curto.

Sonhadores, empresários e cobradores aprenderam, à força, que a paisagem bela do sul também abriga tempestades éticas e morais.

O tempo passa, mas o enredo se repete: dinheiro, confiança e tragédia.

No Paraná, a vida cobra juros altos, e quase nunca há anistia.

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