O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deixou claro que a ofensiva contra o Irã não é operação relâmpago, e a resposta de Teerã ao apertar o Estreito de Ormuz já bagunça a economia real: sobe o petróleo, encarece o seguro dos navios, o frete dispara e isso chega ao Brasil em gasolina, diesel, dólar e no discurso do Comitê de Política Monetária (Copom).
Ormuz é o gargalo do planeta. Nem precisa “trancar” oficialmente para virar problema. Quando o mercado enxerga risco de guerra na rota, as seguradoras levantam o preço, armadores evitam atravessar, rotas ficam mais longas e o custo do medo entra na fatura antes de qualquer falta física de barril.
O tamanho da artéria explica o pânico. Atualmente, passaram por Ormuz cerca de 21 milhões de barris por dia, perto de 20% do consumo mundial de líquidos de petróleo. É o tipo de número que transforma notícia internacional em conta de supermercado.
Na terça-feira (3), a escalada ganhou cara de estratégia: Washington falou em ataques mais duros, e o Irã misturou retaliação militar com pressão econômica ao anunciar o fechamento do Estreito e mirar alvos de EUA e aliados no Golfo.
O primeiro baque aparece no seguro. Em situação de risco de guerra, a cobertura fica mais cara, mais limitada, às vezes some. Sem seguro, navio não navega. Com seguro caro, tudo que viaja encarece, do petróleo ao contêiner.
O segundo baque é o frete da energia. A Reuters registrou salto acima de 40% nas diárias de navios de gás natural liquefeito (GNL) com a crise, sinal de mercado precificando desvio de rota, tempo parado e risco de ataque.
O terceiro baque é a aviação e a logística. Com restrições e suspensões no Golfo, conexões travam, carga aérea encarece e prazos estouram. Isso não fica “lá”, volta em peça, insumo, remédio, eletrônico, tudo que depende de cadeia internacional.
No Brasil, o bolso sente por três caminhos ao mesmo tempo: preço internacional em dólar, custo de transporte e a disputa política sobre juros.
O primeiro caminho é direto. Petróleo mais caro e câmbio sob pressão viram empurra-empurra de repasse, combustível, passagem, frete interno, alimento e serviço. Mesmo quando alguém tenta segurar na marra, a conta reaparece mais adiante.
O segundo caminho é a nossa vulnerabilidade doméstica. O Brasil produz petróleo, mas ainda depende do refino e da importação de derivados, especialmente diesel. Quando o mundo entra em crise de rota e risco, quem compra derivado sente na veia.
E isso tem CPF político. No governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), houve privatizações de refinarias e ativos de refino que reduziram a capacidade de amortecer choques. Resultado: num aperto internacional, cresce a exposição a preço externo, frete, seguro e dólar.
O terceiro caminho é o Copom. Em choque externo, parte do mercado tenta vender a tese de que “guerra exige juros altos”. Só que essa história é conveniente demais. Ormuz pode pressionar preços no curto prazo, mas não explica crédito caro permanente, crescimento travado e a transferência de renda que a Faria Lima trata como normalidade.
Se a inflação importada vira desculpa automática, a Selic vira castigo contínuo, e quem paga é a economia produtiva, emprego, investimento e renda. Guerra no Golfo é fato, mas o rentismo interno é escolha.
Em resumo, Ormuz vira um imposto informal sobre a vida real. Ele aparece na bomba, no frete, no supermercado e na pressão por juros, e também escancara um problema brasileiro criado em casa: menos capacidade de refino e mais dependência quando o mundo pega fogo.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




