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Deu no New York Times: Brasil teme fuga de Bolsonaro antes do julgamento

Deu no New York Times: O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em prisão domiciliar em Brasília, é monitorado com lupa pelas autoridades brasileiras diante do temor de fuga antes do julgamento do golpe, que começa terça-feira (2) no Supremo Tribunal Federal (STF). A repercussão internacional mostra como o mundo acompanha a possibilidade de Bolsonaro ser condenado a mais de 40 anos de prisão por crimes contra a democracia.

Reportagem da jornalista Ana Ionova, publicada neste domingo (31) no New York Times, revelou o cerco inédito montado pela Polícia Federal e autorizado pelo ministro Alexandre de Moraes. Policiais à paisana passaram a vigiar, de forma ostensiva, entradas e saídas do condomínio de luxo onde Bolsonaro cumpre prisão domiciliar, usando tornozeleira eletrônica.

O ministro Moraes justificou a medida como forma de evitar a fuga por “pontos cegos” existentes nas laterais e fundos da residência. A tornozeleira de Bolsonaro, ressaltou o magistrado, não transmite em tempo real os deslocamentos do ex-presidente, o que abriria brecha para um eventual plano de evasão.

O endurecimento determinado por Moraes não surgiu do nada. A Polícia Federal encontrou no celular de Bolsonaro uma minuta, datada de fevereiro, na qual o ex-presidente solicitava asilo político ao presidente da Argentina, Javier Milei. Soma-se a isso a suspeita de que, em 2024, Bolsonaro tentou se refugiar na embaixada da Hungria em Brasília, logo após uma operação policial contra golpistas de seu entorno.

O risco de fuga também se projeta no exterior: seu filho, Eduardo Bolsonaro (PL-SP), atua nos Estados Unidos para pressionar pela libertação do pai, mesmo que ao custo de ameaçar os brasileiros com taxações, sanções e bravatas estimuladas por Donald Trump.

O julgamento do STF tem potencial devastador para Bolsonaro. Ele é acusado de tentar subverter o resultado das eleições de 2022, incitando militares e apoiadores a aderirem a um golpe contra a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Se condenado pelos crimes contra a ordem democrática, Bolsonaro pode pegar mais de 40 anos de prisão. O caso é acompanhado não só por brasileiros, mas também por diplomatas estrangeiros e veículos internacionais, atentos ao futuro da extrema direita na maior democracia da América Latina.

O New York Times destacou que até mesmo a Casa Branca foi pressionada por um dos filhos de Bolsonaro, em busca de intervenção política. A tentativa, no entanto, não surtiu efeito.

O drama se aprofunda no campo político. Bolsonaro recusa-se a declarar apoio ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), antes de garantir uma anistia imediata. Tarcísio é descrito pelos oligarcas do sistema financeiro e da mídia corporativa como herdeiro natural do bolsonarismo.

Tarcísio, por sua vez, prometeu que, se eleito presidente em 2026, seu primeiro ato será conceder indulto a Bolsonaro. Reiterou isso em entrevistas e conversas com empresários do agronegócio, apresentando a medida como gesto de “pacificação nacional”. Mas para Bolsonaro, essa promessa soa como fiado.

O ex-presidente teme reviver a frustração de 2022, quando decretou indulto para Daniel Silveira (PL-RJ) e viu o Supremo derrubar a medida. Na prática, Silveira segue preso até hoje. Por isso, Bolsonaro não aceita esperar até 2027: quer garantias já, antes do julgamento.

Nos bastidores, o clima é de rachadura. Eduardo Bolsonaro (PL-SP) chegou a acusar Tarcísio de ter “cruzado os braços” diante das dificuldades do pai no STF. Para os bolsonaristas mais radicais, o governador paulista seria um ingrato, que se beneficia do capital político da família, mas não moveu uma palha para salvar o “mito”.

Tarcísio, porém, joga em outra quadra. Articula discretamente em Brasília, aproxima-se do centrão e aposta em construir pontes com setores econômicos que desejam uma direita viável sem o peso das acusações criminais de Bolsonaro. A ambição presidencial do governador é cada vez mais explícita, embora negada publicamente.

O dilema expõe a fragilidade da direita no Brasil. De um lado, Bolsonaro luta pela sobrevivência imediata, ameaçado de prisão longa e de isolamento político. Do outro, Tarcísio aposta em um futuro de poder, mas depende da transferência do espólio eleitoral do bolsonarismo.

Para completar, Lula já se prepara para disputar a reeleição em 2026, com a máquina federal a seu favor e o argumento de que é o presidente que “salvou a democracia” ao derrotar a intentona golpista.

O resultado do julgamento no STF poderá selar não só o destino de Bolsonaro, mas também a configuração do tabuleiro político até 2026. Se condenado, o ex-presidente pode deixar de ser ativo político e passar a ser uma âncora para aliados. Se, por algum milagre jurídico, escapar, continuará como sombra pesada sobre a direita.

O New York Times mostra ao mundo que Bolsonaro vive um drama sem precedentes: monitorado como foragido em potencial, encurralado pelo STF e sem confiança nem mesmo nos aliados mais próximos. O julgamento do golpe não é apenas sobre o passado, mas sobre o futuro da direita brasileira.

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