Início / Notícias

Morre Sebastião Salgado, o olhar do mundo pelos olhos do Brasil

Índice de Tópicos

Sebastião Salgado morreu nesta sexta-feira (23), em Paris, aos 81 anos. A notícia parte o coração do jornalismo visual e da luta por justiça social. Brasileiro de Aimorés, Minas Gerais, Salgado fez do preto e branco um idioma universal da dignidade humana — uma linguagem estética que denunciava, iluminava e humanizava.

Economista por formação, fotógrafo por vocação, Salgado foi o maior dos nossos cronistas visuais. Seus retratos de trabalhadores, refugiados, indígenas e ecossistemas em colapso transcenderam a arte: eram documentos do tempo, instrumentos de denúncia, convites à empatia.

Leia também: Fotógrafo Sebastião Salgado é premiado na Alemanha

Saiba mais: Lélia e Sebastião Salgado lançam na França manifesto pela proteção dos índios da Covid-19

Um fotógrafo que não se conformava com o silêncio

Salgado começou sua trajetória na fotografia nos anos 1970, ainda como funcionário da Organização Internacional do Café. Com uma Leica nas mãos e um olhar inquieto, passou a registrar realidades ignoradas — a seca no Sahel, os garimpos de Serra Pelada, os rostos do êxodo forçado.

Cada projeto foi mais que um livro ou uma exposição. Foram tratados éticos em imagens. Trabalhadores, Êxodos, Gênesis, Amazônia — títulos que reverberam como capítulos da história social e ambiental do planeta.

Na Magnum, onde ingressou em 1979, e depois com sua própria agência, a Amazonas Images, fundou um modelo de autonomia artística que desafiava o mercado e afirmava a missão. Seu trabalho sempre foi conjunto com Lélia Wanick Salgado, curadora, produtora, companheira de vida e de ideais.

Luz, sombra e humanidade

Salgado retratou mais de 120 países. Não em busca do exótico, mas do essencial: o humano. A criança desabrigada, o trabalhador sem terra, a floresta violentada. Tudo era revelado com rigor formal e compaixão radical.

Sua estética em preto e branco nunca foi uma escolha apenas técnica. Era política. O contraste acentuado entre luz e sombra traduzia, como poucas narrativas, a desigualdade, a resistência, o abandono e o afeto.

Ao documentar os garimpeiros de Serra Pelada — imagem incluída pelo New York Times entre as 25 que definem a era moderna — ou os indígenas da Amazônia, Salgado devolvia ao mundo aquilo que a pressa e a indiferença nos roubaram: o tempo de olhar.

Um brasileiro universal

Do Prêmio da Paz do Comércio Livreiro Alemão ao Oscar pelo documentário O Sal da Terra, dirigido pelo filho Juliano e por Wim Wenders, Salgado acumulou prêmios. Mas nunca se afastou da raiz.

Fundou com Lélia o Instituto Terra, em Aimorés, que já reflorestou mais de 700 hectares de Mata Atlântica e formou milhares de educadores ambientais. Sua ação ambiental era parte do mesmo gesto: regenerar o que o sistema destruiu.

Na recente retrospectiva em Londres, já aos 80 anos, disse à AFP: “Só me falta morrer agora. Tenho 50 anos de carreira… Não tenho nenhuma pretensão de como serei lembrado. É minha vida que está nas fotos e nada mais”.

Legado imortal

Salgado não procurava a glória. Buscava a verdade — e a justiça. Construiu com imagens aquilo que muitos não conseguem com palavras. Denunciou a barbárie sem explorar o sofrimento. Encontrou poesia na luta. E insistiu, contra todas as evidências, que ainda há beleza no mundo.

Sua morte é perda irreparável. Mas seu legado vive. Em cada retrato de resistência, em cada sombra reveladora, em cada floresta replantada. Sebastião Salgado nos ensinou que fotografar é um ato político. E que ver é, também, um modo de amar.