O senador Sergio Moro (União-PR) rompeu politicamente com o governador Ratinho Junior (PSD) e recebeu nesta quarta-feira (18) o apoio formal do PL para disputar o governo do Paraná, mas o movimento que parecia solução abriu, na prática, uma nova frente de crise para o ex-juiz da Lava Jato. O partido de Valdemar Costa Neto anunciou o embarque na candidatura, porém não homologou a filiação de Moro e deixou claro que o senador ainda precisa resolver o impasse com a federação União Progressista.
O leitor do Blog do Esmael soube em primeira mão, na semana passada, que Ratinho havia liberado o PL para construir palanque próprio no Paraná e empurrado Moro para a órbita bolsonarista. Naquele momento, já estava desenhado o choque entre o projeto presidencial de Ratinho e a necessidade do PL de montar uma base forte para Flávio Bolsonaro no quinto maior colégio eleitoral do país.
Agora a novela ganhou mais um capítulo, e está longe de terminar.
Não é detalhe que o relógio partidário já está correndo para as eleições de outubro. O prazo para trocas de legenda aperta o cerco sobre Moro e ajuda a explicar a pressa nas conversas com o PL. Também pesam nessa aproximação as desavenças acumuladas com o PL, que no passado pediu sua cassação no Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR), e os atritos antigos com o bolsonarismo, desde o período em que Moro foi ministro da Justiça e rompeu com o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Valdemar cravou que o PL vai apoiar Moro, mas também admitiu publicamente que o senador ainda precisa decidir se deixa ou não o União Brasil. Em outras palavras, há apoio político, mas não há terreno jurídico e partidário pacificado. O próprio comando liberal reconheceu que Moro ainda tentaria uma saída dentro da federação formada por União Brasil e Progressistas.
É aí que começam os problemas de verdade.
O PP do Paraná, controlado por Ricardo Barros (PP-PR), continua sendo o principal obstáculo à candidatura de Moro dentro da União Progressista. A resistência não nasceu hoje. Ela já vinha sendo apontada nas articulações da federação e foi reiterada nas últimas semanas, a ponto de empurrar o senador para a conversa com o PL como rota de fuga.
Nos bastidores, o pedágio cobrado por Ricardo Barros para apoiar Moro é alto. A exigência seria dupla: filiação ao PL e entrega da vice ao clã, com sua filha, a deputada estadual Maria Victoria (PP) na chapa. Moro resiste. O ex-juiz prefere um nome de sua confiança e mantém simpatia pelo presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), Edson Vasconcelos, apontado como favorito do senador para a vice.
Esse impasse não é detalhe. É o coração do problema.
Se Moro ceder ao PP, perde parte do discurso de autonomia e entrega um pedaço central da chapa ao grupo que mais o constrange dentro da federação. Se insistir em Edson Vasconcelos, amplia o atrito com Ricardo Barros e empurra a União Progressista para uma crise aberta no Paraná. E, para piorar, o nome do industrial já entrou na mira de adversários, com questionamentos políticos sobre sua gestão na Fiep, o que indica que a eventual vice também carregaria desgaste desde a largada.
A vaga de vice e a composição da chapa ainda seguem em negociação, com Fernando Giacobo (PL-PR) também citado nos bastidores, em caso de chapa puro-sangue. Ele foi citado na última pesquisa contratada pelo PL.
O racha da direita paranaense, portanto, avançou mais um degrau nesta quarta-feira. O PL rompeu com Ratinho Junior porque decidiu priorizar um palanque próprio para Flávio Bolsonaro no estado. Valdemar deixou isso explícito ao justificar que Ratinho seguirá no projeto presidencial e que o partido precisava “fazer votos no Paraná”.
Só que a aliança com Moro também cobra seu preço.
No Senado, Filipe Barros (PL-PR) continua como nome preferencial do bolsonarismo, com apoio de Flávio. A rearrumação pode empurrar Cristina Graeml (União Brasil) para fora da disputa ao Senado e forçá-la a buscar um mandato de deputada federal.
No pano de fundo, Moro tenta montar uma equação improvável.
Precisa manter o favoritismo eleitoral sem romper de vez com a federação. Precisa do PL sem parecer capturado pelo bolsonarismo. Precisa neutralizar Ricardo Barros sem perder o PP. Precisa acomodar Filipe Barros e, ao mesmo tempo, abrir espaço para aliados como Alexandre Curi, nome que circula nas costuras para a segunda vaga ao Senado, conforme relatos de bastidor do próprio campo conservador. E ainda precisa lidar com Cristina Graeml, que não esconde a disposição de disputar o Senado. A pesquisa do Paraná Pesquisas já mostrava, desde janeiro, que Curi, Graeml e Filipe Barros têm densidade real na corrida senatorial, o que torna a acomodação ainda mais explosiva.
O movimento de hoje reforça uma verdade simples: Moro conseguiu romper com Ratinho, mas ainda não conseguiu organizar a própria trincheira.
O ex-juiz entrou de vez no campo de Flávio Bolsonaro no Paraná, porém desembarcou ali carregando impasses partidários, disputa pela vice, guerra por vagas no Senado e conflito direto com Ricardo Barros. Em vez de resolver sua candidatura, a superquarta apenas escancarou que a crise mudou de endereço. Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




