Moro copia Eymael ao vender Flávio Bolsonaro como único anti-Lula; vídeo

O senador Sergio Moro (PL), pré-candidato ao governo do Paraná, recorreu na manhã de segunda-feira (6) a uma fórmula de campanha que remete ao velho repertório de José Maria Eymael ao cravar, em postagem nas redes, que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) seria “o único que pode derrotar” o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No mesmo texto, Moro celebrou o crescimento do PL no estado após a janela partidária e tentou virar o jogo sobre a narrativa da debandada.

Na postagem, Moro afirmou que o PL paranaense passou a ter um senador, quatro deputados federais e doze deputados estaduais, informação que o leitor teve em primeira mão no Blog do Esmael, além de apresentar o deputado federal Filipe Barros como novo presidente estadual da sigla e pré-candidato ao Senado ao lado de Deltan Dallagnol (Novo). O recado político foi direto: usar o reforço de bancada como prova de força regional e como palanque para Flávio Bolsonaro no Paraná.

A semelhança com Eymael não está no partido, mas na repetição da retórica. Em 1998, o presidenciável democrata-cristão apareceu no horário eleitoral com a promessa de que só ele poderia derrotar Fernando Henrique Cardoso, então candidato à reeleição. Eymael também repetiu o bordão contra o PT, em 2018. Moro agora reaproveita a mesma lógica de exclusividade para vender Flávio Bolsonaro como destino inevitável da direita. [Abaixo, assista ao vídeo.]

Eymael, 86 anos, disputou seis vezes o Palácio do Planalto sem nunca ameaçar de fato Fernando Henrique Cardoso, Lula ou os candidatos do PT.

A ironia é que a Democracia Cristã no Paraná virou, ao mesmo tempo, trincheira anti-Moro. O empresário e ex-deputado Tony Garcia se filiou ao DC para erguer um palanque contra o ex-juiz, enquanto o ex-deputado federal Ricardo Gomyde, ex-PCdoB, assumiu o comando estadual da legenda e passou a operar a articulação local ao lado do presidenciável Aldo Rebelo (DC).

Moro até tenta transformar a musculatura do PL no Paraná em argumento nacional, mas a frase sobre Flávio Bolsonaro ser o “único” capaz de derrotar Lula não é um dado pacificado pelas pesquisas. No primeiro turno, levantamentos recentes ainda mostram Lula à frente em cenários nacionais, enquanto no segundo turno aparecem desde empate entre Lula e Flávio Bolsonaro na Quaest e no BTG/Nexus até vantagem de um ponto para Flávio Bolsonaro no Atlas. A fala de Moro, portanto, funciona mais como slogan de pré-campanha do que como consenso empírico.

As reações públicas à postagem seguiram nessa linha. No X, antigo Twitter, a mensagem aparecia com centenas de comentários. Entre as respostas, houve cobrança de viabilidade nacional, com menções a Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) como alternativa mais competitiva contra Lula, críticas à reconciliação de Moro com o bolsonarismo e observações de que a debandada de prefeitos pesa contra o discurso de “Fortaleza Paraná”.

O detalhe político mais revelador talvez nem seja a conta da ALEP. É a escolha do tom. Ao juntar a tese do “único que derrota Lula” com o fecho “só não aceitamos petista ou bandido”, Moro amarrou sua pré-candidatura no Paraná a um bolsonarismo mais fechado, mais extremista e menos disposto a conversar com o centro. Isso ajuda a incendiar a militância, mas também estreita a ponte para fora do cercado.

No Paraná, a operação deixa um contraste pronto para a campanha. De um lado, Moro tenta vender inevitabilidade. De outro, a própria DC, herdeira do imaginário eleitoral de Eymael, abriga um palanque que nasceu para enfrentá-lo. A política tem dessas ironias: o ex-juiz copia a fórmula, e o partido lembrado pelo bordão oferece a vitrine adversária.

Além de Lula e Flávio Bolsonaro, a disputa presidencial de 2026 já reúne outros pré-candidatos de perfis bem diferentes: Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) tentam ocupar o espaço da direita não bolsonarista; Renan Santos (Missão) busca se vender como alternativa antissistema; Aldo Rebelo (DC) reaparece na corrida por uma via nacionalista; Hertz Dias (PSTU) e Samara Martins (UP) marcam presença pela esquerda; Cabo Daciolo, agora no Mobilização Nacional, volta ao jogo com seu estilo de 2018; e o Avante lançou o escritor Augusto Cury como nome próprio para o Planalto.

Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.

Relembre o bordão de Eymael [vídeo]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *