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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) classificou como “atitude irresponsável” a decisão do governo dos Estados Unidos de revogar o visto diplomático da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, revogação anunciada na terça-feira (4). A declaração foi dada nesta quarta-feira, 5 de agosto, em entrevista conjunta ao canal Meteoro Brasil e ao podcast Os Três Elementos, primeira manifestação pública do presidente sobre o caso.
O efeito prático é imediato. O Departamento de Estado americano informou que Viotti pode permanecer nos Estados Unidos, mas sem visto válido: se deixar o país, precisará solicitar novo documento para retornar. Diplomatas brasileiros tratam a situação como inédita, já que a embaixadora não foi declarada persona non grata, mecanismo previsto pela Convenção de Viena que obrigaria sua saída em prazo determinado, mas ficou em um limbo jurídico sem precedente recente na relação bilateral.
Washington justificou a medida pela demora do Brasil em conceder o agrément ao indicado de Donald Trump para a embaixada americana em Brasília. O Itamaraty rebate a versão e trata a revogação como forma de pressão para acelerar essa aprovação. Segundo Lula, “irresponsável e impensada”, vinda de um país com o qual o Brasil mantém relação diplomática havia mais de dois séculos.
Congelamento diplomático até outubro
O desdobramento concreto está no calendário. Lula afirmou que orientou o chanceler Mauro Vieira a não agendar novos encontros com embaixadores estrangeiros até o fim das eleições de outubro. Na prática, o Palácio do Planalto congela parte da agenda diplomática do país em plena disputa presidencial, decisão que reforça a leitura, já compartilhada por fontes do próprio governo, de que a revogação do visto carrega um componente eleitoral: pressionar o cenário político brasileiro às vésperas do primeiro turno, marcado para 4 de outubro.
O episódio não nasce isolado. Ele se soma a uma sequência de fricções comerciais entre Brasília e Washington que já atinge diretamente a economia paranaense. Desde 24 de julho estão em vigor as tarifas de 25% e 12,5% aplicadas pelos Estados Unidos a exportações brasileiras, com base em investigação da Seção 301 conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). Setores como madeira, papel, metalmecânico e cerâmica, todos com peso relevante na indústria paranaense, não entraram na lista de isenções.
Campo Largo, na Região Metropolitana de Curitiba, aparece entre os dez municípios brasileiros mais atingidos pelo tarifaço, com cerca de US$ 184,1 milhões em exportações impactadas, segundo levantamento do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) citado pela Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep). A retração já chega ao transporte: caminhoneiros autônomos paranaenses, mais de 50 mil profissionais, relatam queda de fretes por causa da redução de cargas de madeira e autopeças destinadas aos Estados Unidos.
Nesse contexto, a crise diplomática em torno do visto de Viotti tende a alimentar ainda mais a tensão comercial. Um Itamaraty sem calendário de recebimento de embaixadores e uma Casa Branca que já demonstrou disposição de usar instrumentos econômicos como arma política reduzem o espaço para negociação técnica sobre as tarifas em curso, justamente o tipo de diálogo que setores exportadores do Paraná cobram da Fiep e do governo estadual desde julho.
“TariFlávio”
O caso também reabre a cobrança sobre o campo político que mantém proximidade com o entorno de Trump. Aliados de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) já haviam defendido publicamente sanções e tarifas contra o Brasil ao longo do primeiro semestre, movimento que agora convive com um novo capítulo de deterioração da relação bilateral, desta vez atingindo diretamente a representação diplomática do país nos Estados Unidos.
Para o governo Lula, a resposta declarada é a de não ceder ao que classifica como tentativa de imposição de ritmo por parte de Washington. Para o Paraná, o efeito é indireto, mas concreto: quanto mais a relação Brasil-EUA se tensiona no campo diplomático, menor a margem de manobra para reverter tarifas que já afetam emprego, frete e investimento no estado.
Acompanhe no Blog do Esmael a cobertura das eleições de 2026 e dos reflexos do tarifaço para o Paraná.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




