Índice de Tópicos
- A ofensiva de Lula contra os vídeos sobre comida
- Flávio também levou a guerra das redes à Justiça
- IA deixou de ser promessa e virou problema eleitoral
- TSE já se prepara para essa guerra
- Judicialização dispara antes mesmo da eleição
- O que o TSE terá de separar
- A eleição virou também uma disputa pela infraestrutura da informação
- Receba as notícias do Blog do Esmael
A disputa presidencial de 2026 ganhou uma nova frente judicial em 24 de agosto: a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pediu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) investigação sobre uma suposta ação coordenada de influenciadores que divulgaram vídeos praticamente idênticos sobre o preço dos alimentos, enquanto a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) já havia acionado a Corte para investigar uma suposta rede de perfis falsos usada contra o senador. As duas ofensivas colocam conteúdo coordenado, inteligência artificial e propaganda digital no centro da guerra eleitoral.
A simultaneidade dos movimentos é o dado político mais relevante. De um lado, o grupo de Lula sustenta que uma rede de criadores de conteúdo reproduziu roteiros, imagens, gestos e estruturas de fala para atacar o governo pela alta dos alimentos. De outro, o grupo de Flávio afirma ter identificado milhares de perfis inautênticos que impulsionaram conteúdo negativo contra o candidato e outros nomes da direita.
Nenhuma das acusações, por enquanto, equivale a uma conclusão judicial sobre a existência de uma operação coordenada ou sobre seus responsáveis. São alegações apresentadas pelas próprias campanhas à Justiça Eleitoral e que dependem de investigação, produção de provas e decisão judicial.
A ofensiva de Lula contra os vídeos sobre comida
A representação preparada pela campanha de Lula parte de um levantamento sobre mais de 20 influenciadores. Segundo o material apresentado ao TSE, não haveria apenas coincidência temática entre as publicações sobre o custo dos alimentos.
A alegação é de repetição de elementos muito específicos: roteiro, local de gravação, objeto mostrado diante da câmera, gesto e estrutura da fala.
Um dos exemplos citados é a imagem de um pedaço de contrafilé que teria circulado por 33 contas com o mesmo código de barras na etiqueta. Em outro episódio, três contas teriam publicado o mesmo arquivo em um intervalo de seis minutos e 23 segundos.
O levantamento também registra casos em que criadores de conteúdo relataram ter recebido doações de empresários ou de canais ligados ao bolsonarismo depois das publicações. A campanha petista aponta ainda que um vereador do PL apresentou três moções de congratulações a influenciadores incluídos no levantamento, com numeração consecutiva e texto semelhante. Isso é apresentado pela campanha como possível indício de benefício associado à atividade digital, mas não comprova, isoladamente, uma relação de financiamento ou comando.
A acusação transforma a discussão sobre o preço da comida em uma questão diferente: saber se opiniões individuais foram produzidas de forma independente ou se fizeram parte de uma operação organizada de comunicação política.
Essa distinção será central para o TSE.
Flávio também levou a guerra das redes à Justiça
A campanha de Flávio Bolsonaro entrou antes nessa arena. Em 20 de julho, o coordenador da pré-campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), e a advogada Maria Cláudia Bucchianeri apresentaram ao presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, pedido para investigar uma suposta rede de perfis falsos que atacaria Flávio e outros nomes da direita.
A equipe afirmou ter identificado preliminarmente cerca de 20 mil perfis inautênticos e mais de R$ 20 milhões em impulsionamentos. O material, segundo Marinho, teria alcançado aproximadamente 270 milhões de visualizações. A campanha pediu preservação de provas e identificação dos responsáveis pelo financiamento.
Uma apuração publicada pela Folha informou, porém, que a equipe dizia ter comprovado inicialmente 57 perfis falsos, responsáveis por mais de 4.600 anúncios e cerca de R$ 3 milhões em pagamentos, enquanto a estimativa de mais de 20 mil contas correspondia a uma investigação mais ampla. A campanha também afirmou que os anúncios utilizavam diferentes moedas e que algumas contas eram apagadas depois da veiculação.
A equipe de Flávio não atribuiu publicamente os ataques ao PT ou à campanha de Lula quando apresentou o caso ao TSE. A alegação foi de existência de uma estrutura digital a ser investigada.
Mais recentemente, a disputa passou a envolver também conteúdos manipulados ou produzidos com inteligência artificial. Reportagem desta segunda-feira, 24 de agosto, registra que a campanha de Flávio afirma ter acionado a Justiça contra perfis e conteúdos falsos, inclusive material gerado por IA, utilizado para ataques contra o senador.
IA deixou de ser promessa e virou problema eleitoral
O conflito chega ao TSE justamente quando a Corte tenta estabelecer os limites para uma eleição marcada por conteúdo sintético.
O tribunal regulamentou o uso de inteligência artificial nas eleições de 2026. A regra exige identificação explícita de conteúdos sintéticos produzidos ou significativamente alterados por IA e prevê restrições específicas para materiais manipulados que possam favorecer ou prejudicar candidaturas.
O TSE também estabeleceu que conteúdos sintéticos novos não poderão ser publicados, republicados ou impulsionados no período de 72 horas antes do pleito até 24 horas depois das eleições. A retirada de conteúdo irregular não impede a aplicação de multa, que pode variar de R$ 5 mil a R$ 30 mil.
O problema é que a fronteira da disputa não está mais apenas no deepfake tradicional.
A questão agora envolve redes de contas, impulsionamento, repetição de roteiros, circulação sincronizada de imagens, influenciadores, perfis falsos e produção automatizada. A Justiça terá de investigar não somente se determinado vídeo é verdadeiro ou falso, mas também quem produziu, quem financiou, quem distribuiu e se houve coordenação entre diferentes agentes.
TSE já se prepara para essa guerra
O movimento ocorre enquanto o próprio TSE amplia sua estrutura de combate à desinformação.
Em 6 de agosto, a Corte reuniu YouTube e influenciadores digitais para discutir ações de enfrentamento às notícias falsas e à hostilidade no ambiente digital. O tribunal afirmou que os criadores de conteúdo têm papel relevante na comunicação com o eleitorado e ampliou parcerias com plataformas.
O TSE também firmou acordo com o TikTok para criar ações de integridade informacional, incluindo centro de informações sobre as eleições, etiqueta eleitoral para conteúdos relacionados ao pleito e canal para análise de denúncias.
Em 19 de agosto, a Justiça Eleitoral informou que o aplicativo Pardal já havia recebido 1.103 denúncias relacionadas a irregularidades na propaganda eleitoral de 2026. Entre os registros mais frequentes estavam problemas envolvendo propaganda na internet e impulsionamento.
A Corte ainda se reuniu em 18 de agosto para discutir especificamente o combate aos deepfakes. A reunião ocorreu a portas fechadas, sem decisão pública divulgada naquele momento.
Judicialização dispara antes mesmo da eleição
A dimensão da disputa aparece nos números.
Levantamento mostrou que o TSE recebeu 202 representações relacionadas à pré-campanha até 15 de agosto. O número é mais que o dobro das 84 ações registradas no mesmo período de 2022, aumento de aproximadamente 140%. Mais de 80% dos processos envolvem as pré-campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro.
O volume mostra que a judicialização não é consequência apenas do início oficial da propaganda eleitoral.
A propaganda eleitoral passou a ser permitida em 16 de agosto, e a legislação eleitoral estabelece regras específicas para campanhas na internet, incluindo sites, redes sociais, aplicativos de mensagens e outras plataformas digitais.
O TSE explica que representações por propaganda irregular na eleição presidencial são direcionadas à própria Corte. Esses processos podem resultar em retirada de conteúdo e outras sanções, e os prazos passam a correr de forma contínua durante o período eleitoral.
A tendência é que a guerra digital produza ainda mais processos à medida que a campanha de rádio e televisão começar, em 28 de agosto, e os candidatos aumentarem a circulação de peças nas redes.
O que o TSE terá de separar
O desafio jurídico não será simplesmente escolher entre Lula e Flávio.
A Corte terá de separar cinco situações diferentes: conteúdo espontâneo de eleitor; atuação profissional de influenciador; propaganda eleitoral; ação coordenada de múltiplas contas; e operação artificial ou automatizada destinada a alterar o alcance de uma mensagem.
A repetição de uma opinião não é, por si só, prova de crime ou irregularidade eleitoral. Da mesma forma, a existência de perfis falsos não demonstra automaticamente quem os financiou.
O ponto de ruptura aparece quando as campanhas conseguem demonstrar coordenação, financiamento irregular, manipulação deliberada, uso de estruturas artificiais de distribuição ou violação das regras eleitorais.
É nesse terreno que as duas campanhas estão colocando suas acusações.
A eleição virou também uma disputa pela infraestrutura da informação
A consequência política é maior do que cada representação isoladamente.
A campanha tradicional compra espaço em televisão, rádio e internet. A campanha digital disputa atenção. A nova batalha acrescenta uma terceira esfera: controlar ou neutralizar redes capazes de multiplicar uma mensagem em escala.
O caso dos alimentos mostra como uma pauta econômica pode ser transformada em operação de comunicação. O caso dos perfis falsos apresentado pelo PL mostra o caminho inverso: uma campanha pode alegar que está sendo alvo de uma estrutura artificial destinada a fabricar rejeição.
No meio das duas disputas está o eleitor, que recebe conteúdos aparentemente independentes sem necessariamente saber se existe uma estratégia comum por trás deles.
Esse é o ponto que torna a eleição de 2026 diferente das anteriores.
A pergunta que chega ao TSE não é apenas “quem disse o quê?”. É também “quem produziu?”, “quem pagou?”, “quem distribuiu?”, “quantas contas participaram?” e “houve coordenação?”.
A resposta poderá estabelecer os limites da propaganda política digital para esta eleição e para as próximas.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




