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A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) aposta na polarização e na guerra de denúncias para transformar a eleição presidencial de 2026 numa disputa entre rejeições, enquanto tenta reservar para a economia o papel de desempate. A estratégia ganha força no momento em que o PoderData/Aya registra Lula (PT) com 46% e Flávio com 45% num eventual segundo turno, diferença dentro da margem de erro de dois pontos.
O levantamento, divulgado nesta quinta-feira, 13 de agosto, mostra que Flávio avançou dois pontos em 15 dias, enquanto Lula permaneceu em 46%. A pesquisa foi realizada de 9 a 12 de agosto, com 2.400 entrevistas em 658 municípios das 27 unidades da Federação, por telefone, e está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-06868/2026.
É nesse empate que entra a estratégia identificada pelo Blog do Esmael.
Aliados de Flávio trabalham com a hipótese de que uma campanha carregada de denúncias contra os dois lados possa reduzir o peso da disputa moral e levar o eleitor para uma comparação mais direta sobre a vida econômica.
A lógica política é conhecida: se os dois campos forem levados a chafurdar na lama, a pergunta decisiva deixaria de ser quem tem mais autoridade moral e passaria a ser quem consegue convencer o eleitor de que sua vida melhorou.
A lama como estratégia de polarização
A movimentação não significa que todas as acusações sejam verdadeiras ou que investigações tenham produzido condenações. São processos distintos, que precisam ser tratados segundo o estágio de cada apuração.
Mas, eleitoralmente, a existência de uma investigação já pode ser transformada em munição.
O próprio PoderData/Aya registra que o período da pesquisa coincidiu com a abertura de mais uma investigação contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e com a divulgação de um empréstimo envolvendo Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula, e Roberta Luchsinger, apontada como lobista ligada ao chamado Careca do INSS. O instituto ressalva que os casos ainda precisam ser mais bem apurados.
O dado eleitoral, entretanto, está posto: Flávio cresceu no segundo turno enquanto Lula permaneceu estacionado.
O PoderData/Aya descreve o resultado como um sinal relevante para o PL e relaciona o avanço de Flávio a uma semana em que o senador resolveu problemas políticos que vinham pesando sobre sua candidatura, entre eles a relação com Michelle Bolsonaro e a definição do vice.
A leitura política feita pelo Blog do Esmael vai além do número: a direita percebeu que a polarização pode funcionar como terreno de sobrevivência eleitoral.
Dark Horse e a resposta da direita
O caso Dark Horse sacudiu o entorno do PL e abriu uma frente de desgaste para a candidatura de Flávio Bolsonaro.
A partir daí, a reação política passou a ser contra-atacar as forças ligadas ao governo Lula.
O movimento envolve investigações sobre Lulinha e também ataques a Lindbergh Farias (PT-RJ), que levantou suspeitas criminais acerca do vice de Flávio.
A questão central não é apenas o conteúdo de cada investigação. É a utilização eleitoral do ambiente investigativo.
Na lógica das campanhas, uma denúncia contra um adversário pode servir para neutralizar uma denúncia contra o próprio campo.
É o mecanismo do empate moral: ninguém precisa necessariamente sair limpo da disputa para vencer; basta convencer o eleitor de que o outro lado também tem problemas.
Esse é o ambiente em que a eleição presidencial pode entrar.
Flávio encosta, mas Lula ainda lidera
A pesquisa PoderData/Aya não autoriza afirmar que Flávio passou Lula.
Os números são 46% para o presidente e 45% para o senador, com margem de erro de dois pontos percentuais. Portanto, há empate técnico.
No primeiro turno, a vantagem de Lula é maior: 41% contra 35% de Flávio. Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão) aparecem com 4% cada; Romeu Zema (Novo) e Augusto Cury (Avante), com 3% cada.
O dado mais importante para a estratégia bolsonarista talvez esteja justamente no segundo turno.
Flávio não precisa liderar agora. Precisa mostrar capacidade de crescimento.
E cresceu.
Segundo o levantamento, o senador foi de 43% para 45% em 15 dias, enquanto Lula permaneceu em 46%. A diferença, que era de três pontos, caiu para um.
A picanha como arma eleitoral
É nesse ponto que entra a economia.
Os marqueteiros de Flávio Bolsonaro trabalham com a picanha como figura de linguagem para atacar a promessa econômica feita por Lula em 2022.
A mensagem pretendida é direta: Lula prometeu melhora do poder de compra, mas o consumidor ainda sente que o dinheiro não rende no supermercado.
A picanha, nesse discurso, deixa de ser apenas um corte de carne. Torna-se símbolo da distância entre promessa eleitoral e percepção do eleitor.
A oposição pretende explorar preços dos alimentos, juros, custo de vida e poder de compra.
A pergunta que será colocada ao eleitor é simples: o dinheiro compra mais ou menos do que comprava durante o governo Bolsonaro?
Essa comparação interessa especialmente à direita porque desloca o debate de um terreno em que Bolsonaro e seus herdeiros enfrentam forte rejeição para uma área em que a percepção cotidiana pode ser mais decisiva.
É o supermercado contra o discurso.
O empate moral pode abrir espaço para o bolso
A aposta bolsonarista tem uma premissa: a guerra moral possui limites.
Se Lula e Flávio chegarem ao segundo turno com rejeições elevadas e praticamente empatados, denúncias de um lado e de outro podem produzir saturação.
O eleitor pode concluir que os dois grupos têm problemas.
Quando isso acontece, a economia tende a ganhar importância.
Não se trata de afirmar que isso necessariamente ocorrerá. É uma hipótese de estratégia eleitoral.
A pesquisa mostra que Lula tem 48% de rejeição e Flávio também aparece com 48%, segundo levantamento anterior do próprio PoderData/Aya citado na página da pesquisa.
Nesse ambiente, a campanha de Flávio quer transformar a eleição num plebiscito sobre o custo de vida.
A direita tentará dizer que, apesar dos problemas políticos e jurídicos do bolsonarismo, o governo Bolsonaro deixou uma memória econômica melhor.
O governo Lula deverá responder com emprego, renda, inflação, programas sociais e indicadores econômicos.
Será uma batalha de memórias.
Sul e Centro-Oeste são territórios favoráveis a Flávio
Os recortes regionais da pesquisa ajudam a explicar onde a campanha de Flávio pode concentrar esforços.
O senador registra 53% no Sul e 53% no Centro-Oeste no cenário de segundo turno. Também alcança 50% entre eleitores com ensino superior. Lula, por sua vez, tem 53% no Nordeste e 50% entre as mulheres.
O mapa eleitoral, portanto, já apresenta dois Brasis bastante distintos.
A campanha de Lula precisa preservar o Nordeste e ampliar a vantagem entre mulheres.
A campanha de Flávio tem uma base mais forte no Sul e no Centro-Oeste e procura transformar essa vantagem em crescimento nacional.
A polarização ajuda os dois lados a consolidarem seus territórios.
O problema é conquistar quem está no meio da disputa.
O desempate será na lama ou no bolso?
Essa é a pergunta que começa a organizar a eleição.
Os bolsonaristas apostam que denúncias contra Lula e aliados podem impedir o petista de ultrapassar o patamar em que está e, simultaneamente, reduzir o custo político dos problemas que atingem o campo de Flávio.
Depois, querem deslocar o debate para a economia.
A picanha é o símbolo.
O supermercado é o campo de batalha.
Os juros são munição.
O custo de vida é o argumento.
E a comparação entre Bolsonaro e Lula é o enquadramento.
A pesquisa PoderData/Aya mostra que essa estratégia ainda não produziu uma virada, mas registra uma aproximação relevante. Lula segue numericamente à frente, 46% a 45%, e Flávio avançou dois pontos em 15 dias.
A eleição de 2026 começa, assim, a desenhar uma disputa em duas etapas: primeiro, cada lado tenta sobreviver à lama produzida pela guerra política; depois, tenta convencer o eleitor de que sua vida econômica ficará melhor com ele.
No fim, a pergunta poderá ser menos sobre quem tem razão nas redes sociais e mais sobre quem consegue fazer o eleitor acreditar que seu dinheiro vai render mais.
Continue acompanhando pelo Blog do Esmael as análises e os bastidores do poder e da política nas eleições 2026.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




