O presidente Lula misturou salário mínimo e eleição num mesmo alerta: sem checagem, a mentira organizada pode capturar o voto e sabotar políticas de renda. O recado foi dado na Casa da Moeda, ao celebrar os 90 anos do mínimo e os 20 anos da política de valorização iniciada em 2003.
Lula transforma solenidade em aviso eleitoral
Na fala, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) diz que não fazia “apologia” do valor do salário mínimo, que considera baixo, mas da ideia histórica de garantir dignidade e direitos básicos.
A virada vem quando ele conecta o tema a um padrão que se repete em campanhas: políticos que procuram o povo pobre “na hora do voto” e depois somem. Lula descreve o circuito clássico do clientelismo eleitoral, promessa, selfie, desaparecimento e retorno quatro anos depois.
A mensagem é direta. Se o eleitor não cria memória, não cobra mandato e não filtra o que recebe no celular, a democracia vira refém de marketing, impulsionamento e chantagem emocional.
“Vai ter uma eleição”, e a mentira disputa o comando
O trecho mais explícito da fala é quando Lula lembra que haverá eleição e emenda o alerta central: se as pessoas não forem espertas, a mentira pode vencer a verdade.
Ele trata a desinformação como método, não como ruído. O discurso aponta o WhatsApp como corredor de boatos e pede um gesto simples, mas decisivo: verificar antes de repassar.
Não é apenas moralismo digital. É estratégia eleitoral. Lula sugere que a máquina de fake news não quer convencer pelo argumento, quer vencer pelo volume, pela repetição e pelo cansaço.
Deepfake, “IA” e o ataque dirigido a mulheres
Lula menciona “inteligência artificial” num tom de advertência e usa um exemplo de falsificação de imagem com nudez para explicar o que chama de podridão que tende a crescer.
O ponto político aqui é evidente. Deepfake é arma de reputação. Serve para destruir adversários, intimidar militantes, humilhar mulheres e fabricar “prova” para linchamento moral.
Quando Lula diz que é preciso não se deixar “virar algoritmo”, ele está pedindo soberania do cidadão sobre a própria atenção, e isso é disputa de poder.
Influenciadores, seguidores e por que “bobagem” vence
Lula critica a economia da atenção: professores e conteúdos sérios têm menos alcance do que “bobagem”. Ele cita o fenômeno de seguidores como exemplo de como a mentira prospera.
A leitura é política. O algoritmo premia choque, simplificação e guerra cultural. E quem domina esse território consegue pautar a eleição, mesmo sem apresentar projeto.
Nesse contexto, a defesa do salário mínimo, da renda e do trabalho vira alvo, porque mexe com interesses de elites que lucram com desigualdade e desorganização social.
Voto consciente, cobrança de mandato, “raposa no galinheiro”
No final, Lula transforma o alerta em instrução prática. Ele pergunta se as pessoas lembram em quem votaram para deputado e senador, se acompanharam o mandato, se sabem o que foi feito.
A metáfora é dura e simples: não colocar “raposa no galinheiro”. O apelo é por propósito de voto e fiscalização permanente, não por paixão momentânea.
Essa é a síntese eleitoral do discurso: democracia é rotina, não evento. Se o eleitor só aparece para “digitar o número” e depois esquece, quem manda é o lobby, o dinheiro e a mentira profissional.
Por que Lula escolhe esse enquadramento
O presidente tenta amarrar três aspectos num único discurso.
A primeira é material: salário mínimo e redistribuição de renda como motor de consumo, emprego e dignidade.
A segunda é no campo das ideias: a defesa de empresa pública como soberania, com Casa da Moeda, Banco do Brasil, Caixa, Petrobras no horizonte da disputa ideológica.
A terceira é eleitoral: sem verdade pública mínima, a agenda social fica vulnerável ao ataque coordenado de desinformação, deepfake e terrorismo moral.
O cálculo político é claro. Em vez de tratar fake news como “tema de internet”, Lula a coloca como ameaça direta ao bolso, ao trabalho e ao voto.
O que fica para 2026
O discurso funciona como um manual de autoproteção democrática.
Checar antes de repassar, desconfiar de conteúdo “fácil”, perceber a manipulação de imagem, acompanhar deputado e senador, cobrar coerência de quem promete.
Lula não falou apenas para os convertidos. Falou para o eleitor comum, aquele que decide eleição no fluxo do celular.
E, ao fazer isso num evento sobre salário mínimo, ele sinaliza que a disputa de 2026 não será só de nomes. Será de realidade contra ficção industrializada.
Desinformação em escala
A fala de Lula expõe um conflito que a velha mídia costuma suavizar: desinformação não é opinião, é arma política. E arma política, quando dispara contra o voto, dispara contra o salário, contra a renda e contra a chance de o povo organizar o próprio futuro.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




