A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) informou nesta sexta-feira, 17 de julho, que 699 produtos ficaram fora da tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos. Os itens somaram US$ 22,817 bilhões, equivalentes a 60,5% das exportações brasileiras ao mercado americano em 2025. O alívio nacional, porém, não elimina o risco paranaense: a Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep) estima que cerca de 75% das vendas industriais do estado aos americanos continuarão submetidas às novas tarifas.
Os números da ApexBrasil impedem uma conta automática. Os 39,5% que não integram a relação dos 699 produtos não correspondem, necessariamente, à parcela atingida pela nova sobretaxa de 25%.
A agência calcula que 2.375 produtos serão diretamente alcançados, representando US$ 7,2 bilhões ou 19,2% do valor vendido pelo Brasil aos Estados Unidos em 2025. A diferença inclui mercadorias tratadas por outros regimes tarifários, além de categorias que já estavam submetidas a medidas da Seção 232 da legislação comercial americana.
Essa distinção muda o mapa do tarifaço. A pergunta deixou de ser apenas quanto o Brasil exporta aos Estados Unidos. Agora é necessário identificar quais códigos tarifários permanecem taxados, onde estão as empresas afetadas, quantos empregos dependem delas e qual parcela da receita de cada município vem dessas atividades.
No Paraná, a concentração industrial aumenta o problema. As vendas da indústria estadual aos Estados Unidos totalizaram aproximadamente US$ 1,3 bilhão em 2025. Aplicada a esse valor, a estimativa preliminar de 75% indica uma exposição bruta próxima de US$ 975 milhões, antes dos ajustes necessários por produto, tarifa anterior e situação aduaneira.
Segundo a Fiep, permanecem sujeitos às novas tarifas produtos como madeira serrada, compensados, molduras, portas, parte dos pisos de madeira, revestimentos cerâmicos, móveis e papel. Tilápia, café solúvel, mel e couro aparecem entre as exceções relevantes para o estado.
A lista também mostra por que não basta afirmar que a “madeira” foi isentada ou tarifada. O documento do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) exclui da nova cobrança determinadas categorias de produtos de madeira já tratadas pela Seção 232. A Fiep, entretanto, informa que serrados, compensados, molduras e portas continuam alcançados. A incidência depende do código específico usado na alfândega americana.
O governo do Paraná precisa converter a relação americana do Sistema Harmonizado de Tarifas dos Estados Unidos para a Nomenclatura Comum do Mercosul utilizada pelos exportadores brasileiros. Depois, deve apresentar um quadro agregado por município, setor, empregos formais, participação dos Estados Unidos no faturamento e volume exportado, preservando o sigilo fiscal das empresas.
O Blog do Esmael já mostrou que o último levantamento público estadual identificava cerca de 700 empresas paranaenses com mais de 1% do faturamento ligado ao mercado americano. Dezesseis retiravam mais de 90% da receita dessas vendas. A nova lista permite reclassificar quais dessas empresas receberam alívio e quais continuam vulneráveis.
O calendário aduaneiro também exige precisão. A tarifa entra em vigor para mercadorias que ingressarem para consumo nos Estados Unidos ou forem retiradas de armazéns a partir de 22 de julho. Produtos embarcados e em trânsito antes dessa data poderão escapar da cobrança caso entrem no país até 29 de julho.
A data de assinatura ou vencimento do contrato, isoladamente, não determina a incidência da tarifa. O contrato serve para calcular a exposição comercial da empresa, mas o gatilho jurídico é a entrada da mercadoria na alfândega americana. Empresas com entregas posteriores a 22 de julho precisarão verificar código tarifário, data do embarque e previsão de desembaraço.
A ApexBrasil reservou R$ 130 milhões para um plano de diversificação de mercados, com lançamento previsto para o início de agosto. A estratégia deverá priorizar União Europeia, Associação de Nações do Sudeste Asiático e países da Ásia Central, além de financiar a vinda de compradores estrangeiros ao Brasil.
O programa pode abrir novos canais comerciais, mas não substitui automaticamente contratos firmados nos Estados Unidos. Seu alcance no Paraná dependerá dos critérios de acesso, dos setores priorizados e da capacidade de direcionar recursos aos municípios com maior concentração de empregos e receita exportadora.
A proposta de tarifa adicional de 12,5% precisa ser tratada separadamente. A sobretaxa de 25% contra produtos brasileiros já foi formalizada e começa em 22 de julho. A alíquota de 12,5% faz parte de outro procedimento da Seção 301, aberto contra 60 economias sob a alegação de falhas no combate à entrada de produtos fabricados com trabalho forçado. Trata-se de uma proposta, não de uma tarifa já aplicada.
A ApexBrasil calcula que 106 dos 699 produtos isentos dos 25% ainda poderão ser alcançados pelo processo dos 12,5%. Isso não autoriza somar automaticamente as duas alíquotas sobre toda a pauta brasileira. Cada produto precisa ser conferido dentro do procedimento correspondente.
As exceções reduziram o impacto nacional, mas podem esconder perdas concentradas em cadeias industriais do Paraná. Sem um mapa por código, município, emprego e dependência do mercado americano, o estado continuará discutindo percentuais enquanto empresas decidem sobre turnos, encomendas e investimentos.
Acompanhe no Blog do Esmael os efeitos do tarifaço sobre a indústria, os empregos e as exportações do Paraná.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




