O presidente Donald Trump empurrou a guerra EUA-Israel contra o Irã para uma nova fase na segunda-feira (2): ataques passaram a mirar infraestrutura de energia no Golfo, o Líbano entrou no radar operacional com alerta de evacuação em Beirute e o Estreito de Ormuz voltou ao centro do risco global de rotas, preços e abastecimento.
A escalada ganhou contorno de “guerra econômica” quando instalações e campos de gás e petróleo começaram a sair de operação. A Reuters registrou paralisação de produção de GNL no Catar após ataque de drone a uma unidade ligada à QatarEnergy, além do fechamento da refinaria de Ras Tanura na Arábia Saudita, e a suspensão de campos de gás relevantes em Israel, como Leviathan e Tamar, com efeito em exportações regionais.
O mercado reagiu na veia. A mesma apuração da Reuters aponta salto expressivo do petróleo em meio ao noticiário de ataques a energia e disrupções no entorno do Estreito de Ormuz, o gargalo por onde passa uma fatia decisiva do petróleo transportado por mar, elevando prêmios de risco, seguros e custo de frete.
No eixo Levante, a guerra encostou no Líbano. O britânico Guardian publicou que as Forças de Defesa de Israel (IDF) emitiram alerta “urgente” de evacuação para prédios no sul de Beirute, e houve relatos de grandes colunas de fumaça na capital libanesa, sinal de que o conflito tenta abrir, ou ao menos pressionar, uma segunda frente com o Hezbollah.
A aviação entrou no modo crise. A publicação do Reino Unido relatou que a Turquia cancelou voos para capitais-chave do Oriente Médio por razões de segurança, efeito típico quando o risco de mísseis, drones e interferência em rotas aumenta e empresas redesenham corredores aéreos, encarecendo bilhetes e atrasando cargas.
No lado militar, o custo humano subiu. A imprensa europeia reproduziu atualização segundo a qual quatro militares dos EUA foram mortos em ação até a manhã de hoje, com operações ainda em curso, um indicador de que Washington está mais fundo no teatro de operações do que sugeria a retórica inicial.
A reação internacional também endureceu. A mídia ocidental noticiou que o chanceler Wang Yi afirmou ao chanceler iraniano Abbas Araghchi que a China apoia o Irã na defesa de sua soberania contra os ataques EUA-Israel, um recado que eleva o peso geopolítico da crise e reduz espaço para “soluções rápidas” na ONU.
No Brasil, o Itamaraty entrou em campo com nota dura. O Blog do Esmael registrou que o governo Lula condenou os ataques de EUA e Israel contra alvos iranianos, classificou o episódio como agravamento durante um processo de negociação e cobrou contenção e respeito ao Direito Internacional, enquanto embaixadas monitoram brasileiros na região.
O assessor especial Celso Amorim mantém a linha de que aventuras militares e “mudança de regime” costumam produzir caos duradouro e instabilidade, um raciocínio que ganha volume quando o alvo passa a ser energia, aviação e logística, porque a crise deixa de ser “local” e vira choque externo de preços.
O efeito dominó para o bolso brasileiro é direto. Se Ormuz continuar sob ameaça e se ataques a instalações de produção e refino se repetirem, a pressão se espalha para combustíveis, passagens aéreas, frete e custos industriais, reabrindo ruído inflacionário.

E aí o Copom entra na conta. Petróleo mais caro e câmbio mais estressado pioram expectativas e empurram a política monetária para um dilema clássico: segurar inflação importada sem asfixiar atividade, num cenário em que o choque vem de fora e chega rápido na bomba e no supermercado.
Ou seja, os oligarcas do sistema financeiro se agarram à guerra EUA-Israel-Irã, com petróleo e câmbio mais instáveis, para defender Selic em 15% e empurrar a redução para depois, mantendo uma engrenagem que encarece o crédito e freia investimento e consumo.
Resta saber se o presidente Lula repetirá a fórmula de transformar a onda em ‘marolinha’ na antevéspera de 2026. A conferir.
Portanto, o conflito já não é só sobre mísseis e retaliações, é sobre quem consegue travar a engrenagem do comércio global sem assumir publicamente que está fazendo isso.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




