A guerra em Gaza, dois anos depois, os números expõem a ruína do território e, paradoxalmente, a melhor chance de cessar-fogo desde o início, com negociações no Egito para troca de reféns e prisioneiros, retirada gradual de tropas e arranjo de governança transitória.
O conflito começou com o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, quando cerca de 1.200 pessoas foram mortas e 251 sequestradas em Israel. No segundo aniversário, vigílias se espalharam por kibutzim do sul e por Tel Aviv, com famílias pressionando por um acordo que traga os reféns de volta. A cerimônia oficial foi transferida para 16 de outubro, após Sucot.
Em Gaza, o custo humano é extremo. Levantamentos independentes apontam mais de 67 mil palestinos mortos e 168 mil feridos, algo próximo de 10 por cento da população pré-guerra. Entre as vítimas, ao menos 20 mil crianças. A fome foi declarada em partes do enclave no segundo ano da guerra, após períodos de bloqueio que restringiram alimentos, água e medicamentos.
A infraestrutura ruiu. Estimativas indicam 78 por cento dos edifícios danificados, 92 por cento das casas atingidas e 90 por cento das escolas fora de serviço. Universidades e centros de formação profissional foram devastados, enquanto hospitais operam de forma parcial, superlotados, com falta crônica de insumos, energia e equipes.
O deslocamento é contínuo. Cerca de 2,1 milhões de pessoas foram forçadas a fugir repetidas vezes, vivendo em abrigos improvisados e acampamentos com saneamento precário e água escassa. Os preços em mercados locais são proibitivos para a maioria, sob colapso da produção agrícola e contaminação ambiental.
O impacto sanitário é duradouro. Estudos publicados em revistas médicas de referência estimaram queda drástica da expectativa de vida em Gaza no primeiro ano, com subnotificação de mortes por trauma, doenças e desassistência. Médicos relatam cenários “pós-apocalípticos”, com amputações, infecções e desnutrição infantil em alta.
As acusações de genocídio cresceram. Uma comissão independente das Nações Unidas afirmou que Israel cometeu genocídio em Gaza, recomendando ações de prevenção e punição. Israel rejeitou as conclusões e sustenta que age em legítima defesa, argumentando que o Hamas utiliza civis como escudos humanos e captura recursos humanitários.
Na frente diplomática, mediadores egípcios e cataris conduzem tratativas indiretas entre Israel e o Hamas por uma trégua longa. O desenho em debate inclui libertação de 48 reféns e de cerca de 1.700 prisioneiros palestinos, retirada escalonada de tropas e discussão sobre governança transitória. O desarmamento do Hamas segue como ponto sensível. A pressão de Washington, sob liderança do presidente Donald Trump, e de países árabes e muçulmanos, impulsiona as conversas, enquanto a coalizão de Benjamin Netanyahu enfrenta tensões internas.
O ambiente político em Israel combina luto, cansaço e divisão. A mobilização de familiares por um acordo imediato mantém o tema no centro da agenda, enquanto alas da extrema direita ameaçam a estabilidade do governo caso ceda em temas-chave. No terreno, ataques e sirenes lembram que a guerra continua, apesar da janela de paz.
No Brasil, a interceptação da flotilha civil que tentou furar o bloqueio marítimo repercutiu com relatos de abusos durante detenções, negados por autoridades israelenses. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva cobrou respeito ao direito internacional e assistência a brasileiros, evidenciando a tensão diplomática e a expectativa por uma saída pacífica.
Entretanto, há um consenso mínimo sobre urgência humanitária e libertação de reféns. A paz exige escolher vida, direito e reconstrução, acima do cálculo político. Uma trégua robusta com garantias, supervisão internacional e compromisso com direitos iguais para palestinos e israelenses é o caminho para encerrar o ciclo de vingança e abrir espaço à reconstrução de Gaza, com retorno digno para deslocados e responsabilização por crimes graves. Leia no Blog do Esmael.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




