A deputada federal Gleisi Hoffmann (PT) publicou nesta segunda-feira, 6 de julho, um vídeo em que rebate informações divulgadas por Deltan Dallagnol (Novo) sobre a ligação ferroviária entre Guarapuava e o Porto de Paranaguá. A petista corrigiu o traçado apresentado pelo ex-deputado cassado e voltou a desafiá-lo a apresentar uma certidão sobre sua situação eleitoral.
O confronto começou após Deltan defender uma Ferroeste que passasse por Guarapuava e levasse a produção paranaense até Paranaguá. No vídeo reproduzido por Gleisi, ele afirma que o Paraná precisa de uma ferrovia capaz de transportar cargas com segurança, estabilidade, rapidez e menor custo.
Deltan também declarou que apenas a BR-277 chegaria a Paranaguá.
“Essa turma do Flávio Bolsonaro aqui no Paraná não para de passar vergonha. Agora foi a vez do inelegível falar bobagem”, respondeu Gleisi.
A deputada afirmou que o trecho citado por Deltan já existe e explicou que a Ferroeste opera entre Guarapuava e Cascavel. Segundo ela, a conexão de Guarapuava até Paranaguá é completada pela malha ferroviária concedida à Rumo.
A checagem dos dados mostra que Gleisi está correta ao afirmar que Guarapuava já possui ligação ferroviária com o Porto de Paranaguá. Há, porém, uma diferença técnica importante explicada pela própria deputada do PT: nem todo o corredor pertence à Ferroeste.
A estatal paranaense administra 248,5 quilômetros entre Guarapuava e Cascavel. A ferrovia foi construída entre 1991 e 1994, entrou em operação em 1995 e recebeu inicialmente os nomes de Ferrovia da Soja e Ferrovia da Produção.
O trecho de Guarapuava em direção a Curitiba e Paranaguá integra a Malha Sul, operada pela Rumo. Portanto, já existe transporte ferroviário entre o Centro-Sul e o litoral, mas a operação é dividida entre empresas e concessões diferentes.
Essa distinção não elimina o problema levantado no debate. A estrutura atual enfrenta gargalos na Serra da Esperança, entre Guarapuava e a região de Ponta Grossa, e na descida da Serra do Mar. A modernização desses trechos é reivindicada há anos por produtores, cooperativas, governos e entidades empresariais.
Gleisi também acertou ao afirmar que o governo federal prepara uma nova concessão para a Malha Sul.
A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) abriu em 2 de junho uma audiência pública sobre o novo modelo. O contrato da Rumo termina em 2027, e o governo pretende dividir o sistema em três corredores ferroviários, com um único leilão e três lotes.
O Corredor Paraná-Santa Catarina terá 1.502 quilômetros e passará por Guarapuava, Curitiba e Paranaguá. Ele concentra 78% das cargas da Malha Sul. O projeto completo prevê R$ 14,4 bilhões em investimentos durante 30 anos de concessão.
As contribuições à audiência pública poderão ser apresentadas até 10 de agosto. Curitiba receberá uma sessão presencial em 27 de julho.
A publicação da ANTT confirma que o processo de nova concessão está em andamento. O comunicado oficial, no entanto, não apresenta como obrigação já definida a construção da variante ferroviária entre Guarapuava e Lapa nem do contorno ferroviário de Curitiba.
Essas obras aparecem em estudos e reivindicações relacionados à Nova Ferroeste. O projeto estadual prevê um novo trajeto pela Serra da Esperança, a partir de Guarapuava, e um contorno da Região Metropolitana de Curitiba iniciado na Lapa. O desenho busca ampliar a capacidade ferroviária e retirar parte dos trens das áreas urbanas.
Depois da correção sobre os trilhos, Gleisi deslocou o vídeo para o terreno eleitoral.
“Antes de falar besteira, Dallagnol tem de mostrar sua certidão eleitoral ao povo do Paraná e provar que pode ser candidato”, afirmou.
O desafio atinge a principal vulnerabilidade política de Deltan na pré-campanha ao Senado. Ele foi eleito deputado federal em 2022, mas teve o registro cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em maio de 2023.
O TSE entendeu que Deltan deixou o Ministério Público Federal enquanto ainda enfrentava procedimentos administrativos que poderiam produzir consequências previstas na Lei da Ficha Limpa. O processo referente à eleição de 2022 transitou em julgado em setembro de 2023.
A consequência dessa decisão para a eleição de 2026 continua em disputa. Gleisi sustenta que o acórdão e a certidão do TSE demonstram a inelegibilidade do ex-procurador. Deltan afirma que a cassação atingiu apenas o registro de 2022 e que poderá concorrer novamente.
Em 17 de junho, o Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR) derrubou, por unanimidade, punições impostas a Gleisi por declarações sobre a situação de Deltan. A Corte considerou que as manifestações estavam baseadas em documentos públicos e protegidas pela liberdade de expressão.
A decisão não deferiu uma candidatura de Deltan nem julgou definitivamente sua participação em 2026. Essa análise deverá ocorrer no processo de registro, depois das convenções partidárias.
O vídeo de Gleisi junta dois conflitos que já organizam a eleição paranaense. O primeiro envolve quem controlará os investimentos ferroviários após o encerramento da concessão da Rumo. O segundo coloca a antiga Lava Jato diante das consequências eleitorais da cassação de seu principal procurador.
Deltan tentou transformar a deficiência logística do Paraná em plataforma eleitoral. Gleisi respondeu com o mapa ferroviário e devolveu a discussão à Justiça Eleitoral.
Até a publicação desta matéria, o ex-deputado não havia divulgado resposta pública ao novo vídeo. O espaço permanece aberto para manifestação.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




