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Emenda atribuída a Valdemar pagou show no Paraná

Uma emenda de R$ 290 mil destinada a Cafelândia, no oeste do Paraná, foi usada para financiar a apresentação da dupla Thaeme & Thiago nas comemorações dos 43 anos do município. A indicação do recurso é atribuída pela Polícia Federal (PF) a Valdemar Costa Neto, presidente nacional do Partido Liberal (PL), embora ele não exerça mandato parlamentar. A defesa nega qualquer irregularidade, e a investigação não representa condenação.

O dinheiro aparece entre as 21 emendas que levaram o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), a determinar o bloqueio de até R$ 119,2 milhões em bens de Valdemar e a suspensão das despesas ainda não executadas.

A tabela anexada à decisão registra uma emenda de R$ 290 mil, na área de turismo, destinada a Cafelândia. O lançamento aparece associado a março de 2026.

O show de Thaeme & Thiago, entretanto, ocorreu em 21 de novembro de 2025, durante a Expocaf, festa organizada pela prefeitura para celebrar o aniversário de emancipação política do município. A programação também teve apresentações de Léo & Raphael e Israel & Rodolffo.

A diferença entre a data da apresentação e o registro da emenda torna indispensável a divulgação do processo completo. A prefeitura precisa informar se o repasse de março de 2026 quitou uma despesa já realizada, funcionou como reembolso ou integrou outro procedimento administrativo relacionado à festa.

Dados do Transferegov mostram que os recursos associados pela investigação a Valdemar foram utilizados na contratação de artistas em Cafelândia e em três municípios paulistas: Iepê, Guaimbê e Macedônia. Em Cafelândia, a verba financiou a apresentação de Thaeme & Thiago.

Os documentos disponíveis, porém, não esclarecem o custo individual do show no Paraná. Uma reportagem do UOL listou Cafelândia com R$ 220 mil, enquanto a tabela da decisão reproduzida por outros veículos registra R$ 290 mil destinados ao município.

Sem o contrato, a nota fiscal, a ordem de pagamento e o extrato bancário, não é possível afirmar se os R$ 290 mil foram integralmente transferidos à empresa responsável pela dupla, se R$ 220 mil corresponderam ao cachê ou se parte da verba custeou outras despesas do evento.

Também permanece sem confirmação pública o nome da pessoa jurídica que recebeu o pagamento. A identificação da empresa é necessária para verificar o valor bruto, possíveis retenções tributárias, intermediários, representantes artísticos e a compatibilidade do cachê com apresentações semelhantes realizadas no mesmo período.

O ponto central da investigação não é a realização da festa nem a contratação de artistas por uma prefeitura. O conflito está na autoria da indicação orçamentária.

As emendas eram formalmente atribuídas à liderança do PL ou a parlamentares apontados como solicitantes. A PF sustenta, com base em mensagens e planilhas apreendidas, que Valdemar teria comandado a definição dos municípios e dos valores, embora estivesse fora da Câmara dos Deputados.

Segundo a corporação, servidores teriam inserido as indicações de Valdemar entre emendas regulares e atribuído os pedidos a deputados para dar aparência formal à operação. A investigação classificou o mecanismo como um “arranjo decisório paralelo”.

Dino afirmou na decisão que as mensagens e planilhas indicam que Valdemar, mesmo sem mandato, teria atuado como mandante do redirecionamento de recursos públicos. A medida cautelar bloqueou bens até o limite de R$ 119,2 milhões e suspendeu despesas relacionadas pela PF.

A defesa de Valdemar afirma que a decisão parte de premissas frágeis e de inferências subjetivas. Os advogados negam que o dirigente tenha aderido conscientemente a qualquer esquema e sustentam que presidentes partidários podem dialogar com parlamentares, defender prioridades e influenciar politicamente suas bancadas.

Cafelândia é administrada por Junior Motter, eleito prefeito pelo Partido Novo (Novo) em 2024. O dado mostra que os municípios beneficiados não estavam restritos a administrações do PL. Segundo o levantamento sobre as emendas, prefeituras governadas por sete partidos aparecem entre os destinos dos recursos atribuídos a Valdemar.

O caso alcança o Paraná num momento em que PL e Novo atuam juntos na montagem eleitoral estadual. As duas siglas lançaram Sergio Moro (PL) ao governo, Deltan Dallagnol (Novo) e Filipe Barros (PL) ao Senado, em evento com Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Não existe, nos documentos publicados até agora, elemento que atribua a Sergio Moro, Flávio Bolsonaro, Deltan Dallagnol, Filipe Barros ou à direção estadual das siglas participação na indicação para Cafelândia. O vínculo político objetivo é que Valdemar preside nacionalmente o partido que organiza essas candidaturas.

A Prefeitura de Cafelândia deve tornar públicos o contrato de Thaeme & Thiago, o processo de inexigibilidade, o empenho, a liquidação, a ordem bancária, a empresa beneficiária e a prestação de contas da Expocaf. Também precisa esclarecer se tinha conhecimento de que a PF atribui a indicação da emenda a um dirigente partidário sem mandato.

A transparência permitirá separar três valores que não podem ser confundidos: o montante da emenda, o cachê artístico e o custo total da festa.

Acompanhe o Blog do Esmael para as próximas revelações sobre as emendas investigadas e seus destinos no Paraná.