Delcy Rodríguez adotou um discurso duro contra os Estados Unidos ao assumir interinamente o comando da Venezuela, mas sabe que caminha sobre uma corda bamba. Ao mesmo tempo em que reafirma lealdade a Nicolás Maduro, a dirigente precisa administrar a aposta fria do governo Donald Trump, que a enxerga como peça funcional para “operar” o país sob tutela de Washington.
A nova líder interina condenou publicamente o sequestro de Maduro e da primeira-dama, Cilia Flores, classificando a ação como violação do direito internacional. Em tom performático e calculado, reforçou que “há um único presidente na Venezuela” e que seu nome é Maduro, gesto voltado sobretudo às Forças Armadas e à base remanescente do chavismo.
Rodríguez, ex-vice-presidente e ex-ministra do Petróleo, é uma veterana do regime bolivariano. Advogada trabalhista de formação, construiu reputação de gestora pragmática e fluente em inglês, qualidades que despertaram interesse direto da Casa Branca. Para Trump, ela seria mais “profissional” e previsível do que Maduro, além de capaz de garantir interesses estratégicos dos EUA, especialmente no setor de energia.
O cálculo de Washington ficou explícito nas declarações do secretário de Defesa, Pete Hegseth, ao afirmar que os EUA “definem os termos” para a Venezuela, da interrupção do fluxo de drogas ao controle sobre o petróleo. A leitura é clara, Rodríguez seria uma líder tutelada, uma espécie de administradora de um Estado vassalo.
Nos bastidores, a escolha por Delcy também significou o descarte de Maria Corina Machado, principal nome da oposição liberal. Apesar do apoio popular e do Prêmio Nobel da Paz, Machado não tem trânsito entre os militares, pilar central do regime. Para os EUA, ela se mostrou politicamente inviável no curto prazo.
A missão de Rodríguez é delicada. Para se manter no poder, precisará acomodar exigências de Washington sem provocar ruptura interna. Um passo em falso pode resultar em levante militar, explosão social ou nova ofensiva militar estrangeira. A retórica anti-imperialista, nesse contexto, funciona mais como cola simbólica do que como estratégia real.
O comando interino marca um momento histórico. A revolução iniciada por Hugo Chávez em 1999 e consolidada por Maduro desde 2013 passa agora às mãos de uma dirigente conhecida mais pelo pragmatismo do que pelo fervor ideológico. A ironia é evidente, décadas após o pai de Delcy morrer sob custódia do Estado venezuelano por envolvimento em um sequestro de cidadão americano, forças dos EUA sequestram seu chefe político.
Ao final de seu discurso, Rodríguez afirmou que a Venezuela “jamais voltará a ser colônia, nem de velhos, nem de novos impérios”. A frase resume o dilema. O país segue formalmente soberano, mas cada vez mais condicionado por forças externas e por uma transição conduzida sob vigilância armada.
A ascensão de Delcy Rodríguez não representa ruptura democrática nem solução estrutural para a crise venezuelana. É, antes, um arranjo de sobrevivência, costurado entre pressão militar externa e autoritarismo interno. A corda bamba está esticada e qualquer desequilíbrio pode empurrar a Venezuela para um cenário ainda mais instável.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




