O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) vê o caso “Dark Horse” entrar nesta segunda-feira (25) numa fase mais perigosa: a Folha revelou que controladores do fundo Havengate, usado para receber dinheiro de Daniel Vorcaro para o filme sobre Jair Bolsonaro (PL), abriram uma empresa em Delaware, estado americano conhecido pelo sigilo societário.
A crise, que começou nos áudios e mensagens sobre a relação de Flávio Bolsonaro com o dono do Banco Master, agora muda de prateleira. Sai do constrangimento político e entra no rastreamento de dinheiro, fundo, empresa, contrato, produtoras e eventual investigação da Polícia Federal (PF).
Segundo a Folha, o Havengate recebeu R$ 61 milhões de Vorcaro entre fevereiro e maio de 2025 para financiar “Dark Horse”. O fundo é administrado pelo advogado Paulo Calixto, ligado a Eduardo Bolsonaro, e pelo corretor de imóveis Altieris Santana. A nova empresa, MCC-4 Equity Fund GP LLC, foi aberta em Delaware em 12 de fevereiro.
Delaware importa porque não é um endereço qualquer. O estado permite abertura de empresas com pouca exposição pública sobre sócios e informações financeiras. Isso não prova crime. Mas cria uma pergunta objetiva para qualquer campanha que ainda tente vender moralidade pública como patrimônio exclusivo: por que uma rota de dinheiro ligada ao filme de Bolsonaro passa por uma estrutura em paraíso fiscal?
A Folha informou que a MCC-4 Equity Fund GP LLC controla outra empresa no Texas, a MCC-4 Equity Fund LP, também administrada pela dupla. O registro de Delaware cita Altieris Santana como gerente, sem listar eventuais outros sócios. A apuração acrescenta que Calixto e Santana não responderam aos questionamentos da reportagem.
O ponto sensível para Flávio Bolsonaro é que a defesa política do caso ficou mais difícil. Não se trata apenas de explicar por que o filho de Jair Bolsonaro negociou dinheiro com Vorcaro. Agora seus aliados precisam explicar a trilha posterior: quem recebeu, quem controlou, quem assinou, quem administrou e por que parte da estrutura societária foi parar em Delaware.
Flávio Bolsonaro afirma que a negociação envolvia investimento privado para o filme sobre o pai, sem favor político, vantagem pública ou irregularidade. A negativa precisa constar. Mas a política não trabalha só com defesa formal. Ela trabalha com imagem, repetição e coerência entre discurso e prática.
A direita construiu parte de sua identidade recente sobre a promessa de limpar a política. O caso Banco Master, com dinheiro de Vorcaro, filme de ex-presidente, fundo nos Estados Unidos e empresa em Delaware, atravessa essa narrativa. O eleitor pode não acompanhar cada sigla societária, mas entende a diferença entre discurso moralista e rota opaca de dinheiro.
No Paraná, o problema já tem endereço político. O deputado federal Filipe Barros (PL) marcou para sexta-feira (29) sua festa de 35 anos, em Curitiba, com expectativa de presença de Flávio Bolsonaro. O que antes era vitrine do bolsonarismo local virou teste público de fidelidade em meio ao BolsoMaster.
O senador Sergio Moro (PL), pré-candidato ao governo do Paraná, também entra nessa conta. O ex-juiz da Lava Jato prometeu uma agência estadual anticorrupção, mas poupou Flávio Bolsonaro quando o caso Vorcaro explodiu. A nova trilha em Delaware estreita ainda mais esse espaço: Moro terá de decidir se sua régua anticorrupção vale contra aliados do PL ou apenas contra adversários.
Deltan Dallagnol (Novo), que tenta se acomodar no mesmo campo político, enfrenta dilema parecido. A costura entre lavajatismo, bolsonarismo e Novo no Paraná dependia de um candidato nacional capaz de unir a direita sem cobrar explicações diárias. Flávio Bolsonaro, porém, passou a carregar uma agenda defensiva.
O Blog do Esmael informou que Flávio Bolsonaro tenta uma reunião com Donald Trump nos Estados Unidos para virar a página da crise. O movimento mira o palco internacional, mas a revelação sobre Delaware puxa o assunto de volta para o dinheiro. Uma foto com Trump pode animar militância. Não responde, sozinha, quem controlou a rota financeira do “Dark Horse”.
O Financial Times também tratou nesta segunda-feira (25) do efeito do filme sobre a candidatura de Flávio Bolsonaro. A leitura internacional aumenta o custo político do caso. A crise deixou de circular apenas em Brasília e passou a conversar com mercado, imprensa estrangeira, eleição presidencial e palanques estaduais.
Para o Blog do Esmael, o recorte paranaense é direto: quem no Paraná vai defender a rota do dinheiro? Filipe Barros, Moro e Deltan não são personagens laterais nessa engrenagem. Eles escolheram o mesmo campo político, disputam o mesmo eleitorado conservador e dependem da mesma candidatura nacional para organizar 2026.
A nova trilha de Delaware não condena Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Calixto, Santana ou qualquer aliado. O limite factual é esse. Mas a revelação amplia a lista de perguntas e reduz a margem para resposta pronta.
O caso “Dark Horse” saiu da propaganda familiar e entrou na contabilidade política. Se o bolsonarismo quiser transformar o filme em arma eleitoral, terá de explicar antes por que o dinheiro de Vorcaro passou por um fundo nos Estados Unidos e por que os controladores desse fundo abriram uma empresa em Delaware no ano da eleição.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




