Aliados do governador Ratinho Júnior afirmam que o racha no grupo governista do Paraná não é obra do acaso e enxergam a mão do senador Sergio Moro por trás de vazamentos, intrigas e da divisão interna que trava a sucessão no Palácio Iguaçu.
“A mão que afaga é a mesma que apedreja”, resumiu um assessor próximo ao governador Ratinho Júnior (PSD), em referência ao poema Versos Íntimos, de Augusto dos Anjos, ao definir a postura do senador Sergio Moro (União), que passou a circular com mais frequência no Executivo estadual em busca da bênção para disputar o governo.
Nos bastidores, a avaliação é de que parte das denúncias que atingem o governo nasce dentro do próprio Palácio Iguaçu. Setores inconformados com a possível escolha de Guto Silva (PSD) como candidato do grupo teriam alimentado a oposição e o entorno de Moro com informações sensíveis.
A leitura entre aliados é direta. O chamado “fogo amigo” também serviria para tensionar a relação entre os três nomes do governismo, Alexandre Curi (PSD), Guto Silva e Rafael Greca (PSD), mantendo Ratinho Júnior na indefinição e abrindo espaço para o avanço do senador do União Brasil.
Há ainda um componente de pressão política explícita. Segundo interlocutores do Palácio, Moro fez chegar ao governador o recado de que, sem apoio à sua candidatura, poderá se abraçar ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e disputar o controle do PL no Paraná. Nesse cenário, o deputado Fernando Giacobo (PL) perderia espaço e influência.
Com anuência tácita do Palácio do Planalto, o PSD avalia lançar Ratinho Júnior na disputa presidencial. Em articulações reservadas, Sergio Moro condiciona qualquer apoio nacional ao governador ao endosso formal de sua candidatura ao governo do Paraná.
Desconfiança histórica
Integrantes do núcleo político conhecido como “República de Jandaia do Sul” alertam que mesmo uma eventual aliança com Moro não garantiria lealdade no pós-eleição. A desconfiança tem lastro recente. Aliados recordam a composição entre Ney Leprevost e os Moro em Curitiba, que acabou rompida ainda durante a campanha municipal, com resultado considerado desastroso em 2024.
A mulher do ex-juiz, a deputada Rosângela Moro, a Janja Moro, foi vice do deputado Ney Leprevost em chapa puro-sangue do União Brasil. A dupla fez 6,49%, amargando o quarto lugar na disputa pela Prefeitura de Curitiba.
Essa memória pesa no cálculo de Ratinho Júnior. Observadores palacianos notam que Moro reduziu drasticamente o tom crítico ao governo estadual. Escândalos envolvendo a Sanepar, crises de falta de água e energia, a privatização da Celepar e problemas em licitações foram enviados para a “geladeira”, dizem os governistas, “talvez para conservar bem as denúncias”.
Para aliados do governador, a mudança de postura tem um objetivo claro. Moro deseja influenciar o destino eleitoral do grupo de Ratinho e se colocar como herdeiro natural do Palácio Iguaçu.
Estratégia 2030 no radar
Parte do PSD avalia que a divisão interna também pode servir a uma estratégia de longo prazo. O cálculo seria permitir que adversários cheguem ao segundo turno em 2026, apostando em um governo fraco que abra caminho para o retorno de Ratinho Júnior ao Executivo estadual em 2030.
Nesse cenário, ganham musculatura o próprio Moro, enquanto os nomes governistas seguem dependentes da transferência direta de votos do atual governador.
A sucessão no Paraná entra, assim, em uma fase de jogo pesado, marcada por vazamentos, chantagens veladas e alianças instáveis. O risco, admitem aliados, é que Ratinho Júnior acabe refém de uma engenharia política que pode explodir antes ou depois das urnas.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




