O Datafolha divulgado neste sábado (20) mostra que o governo Lula (PT) segue com avaliação negativa maior que a positiva: 38% consideram a gestão ruim ou péssima, 32% avaliam como ótima ou boa e 29% classificam o governo como regular. O dado central é a estabilidade, mas a consequência política é incômoda para o Palácio do Planalto: Lula lidera a corrida presidencial, porém ainda governa com reprovação numericamente acima da aprovação.
A pesquisa foi feita presencialmente com 2.004 eleitores nos dias 17 e 18 de junho, em pontos de fluxo populacional. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado na Justiça Eleitoral sob o código BR-09956/2026.
Na rodada anterior, realizada no fim de maio, o Datafolha havia medido os mesmos 38% de avaliação negativa e os mesmos 32% de avaliação positiva. A avaliação regular era de 28% e passou a 29%. Ou seja, a melhora gradual observada antes estacionou justamente no momento em que a eleição entra em fase de maior temperatura política.
O segundo indicador também mostra empate político apertado. Quando o eleitor é perguntado se aprova ou desaprova o trabalho de Lula como presidente, 48% dizem aprovar e 49% afirmam reprovar. A diferença de um ponto percentual está dentro da margem de erro, mas confirma um país dividido entre continuidade, desgaste e voto útil contra a volta do bolsonarismo ao Palácio do Planalto.
A fotografia não derruba Lula, mas limita sua margem de manobra. O presidente aparece competitivo na disputa eleitoral, inclusive à frente de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nos cenários presidenciais, mas a avaliação do governo indica que parte do eleitorado ainda separa o voto em Lula da satisfação plena com a administração. Esse é o terreno onde se decide a eleição: não apenas entre direita e esquerda, mas entre memória social, preço da comida, renda, emprego, serviços públicos e medo de retrocesso institucional.
O Datafolha mostra essa conexão entre avaliação de governo e voto. Entre os eleitores que declaram voto em Lula, 69% avaliam o governo de forma positiva e apenas 2% o consideram negativo. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, 77% classificam a gestão como ruim ou péssima e só 3% dizem que o governo é ótimo ou bom. A pesquisa, portanto, confirma que a eleição presidencial também será um plebiscito sobre o terceiro mandato de Lula.
O ponto de atenção para o Planalto está na base popular. Entre os eleitores com renda familiar de até dois salários mínimos, a avaliação positiva caiu de 39% para 36%, dentro da margem de erro do segmento, enquanto a negativa subiu de 28% para 31%. É nesse eleitorado que Lula construiu sua vantagem histórica e é nele que a campanha precisará transformar programas sociais, salário, crédito, emprego e comida mais barata em percepção concreta de melhora.
A oposição, por sua vez, tenta explorar a reprovação como prova de fadiga do governo. O problema para Flávio Bolsonaro é que a mesma pesquisa mostra Lula ainda à frente na disputa presidencial. A direita tem uma narrativa de desgaste, mas não resolveu seu próprio passivo político, jurídico e eleitoral, especialmente depois da associação do senador do PL ao ecossistema de Daniel Vorcaro e do Banco Master.
O governo também enfrenta ruídos no Congresso e pressão internacional. A Câmara aprovou a Proposta de Emenda à Constituição que acaba com a escala 6×1, uma bandeira de forte apelo junto aos trabalhadores, mas o texto está parado no Senado. No plano externo, Donald Trump voltou a usar tarifas contra o Brasil como instrumento de pressão política e econômica, enquanto tenta interferir no ambiente eleitoral brasileiro.
A comparação histórica é dura para Lula. Com três anos e cinco meses de mandato, os 32% de ótimo ou bom ficam abaixo dos índices registrados no mesmo período de seus dois governos anteriores. Em 2006, Lula tinha 39% de avaliação positiva; em 2010, 76%. A avaliação negativa de 38% também é superior à registrada por Fernando Henrique Cardoso no fim do segundo mandato e por Dilma Rousseff em 2014, ficando abaixo apenas do patamar de Jair Bolsonaro em 2022.
O dado, porém, não autoriza leitura apressada. Lula não chega fraco à eleição, mas chega pressionado. A diferença entre liderar a corrida e vencer com conforto depende da capacidade do governo de reduzir a reprovação, reconectar a base popular e impedir que o debate econômico seja sequestrado pela máquina de desinformação bolsonarista.
No Paraná, a pesquisa nacional também pesa sobre a disputa estadual. Se Lula mantiver vantagem sobre Flávio Bolsonaro e conseguir nacionalizar a eleição como confronto entre democracia e bolsonarismo, o campo progressista ganha fôlego para empurrar Requião Filho (PDT) contra Sergio Moro (União Brasil) em um eventual segundo turno. Também impulsiona Gleisi Hoffmann (PT) para o Senado. A avaliação do governo, no entanto, será cobrada no preço do arroz, no salário, no transporte, na escola pública e na vida concreta do eleitor paranaense.
A estabilidade do Datafolha tem duas leituras. Para Lula, evita sangria e preserva a dianteira eleitoral. Para a oposição, mantém aberta a avenida da crítica ao governo. A eleição de 2026, portanto, entra em seu trecho decisivo com um presidente favorito, mas não imune ao desgaste; e com uma direita barulhenta, mas ainda presa ao sobrenome Bolsonaro e às contas mal explicadas do BolsoMaster.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




