O presidente do Congresso Nacional, senador Davi Alcolumbre (União-AP), marcou para 17 de junho a leitura do requerimento da CPMI do INSS. A escolha da data não foi casual: coincide com o auge das festas de São João, que movimentam intensamente o calendário político do Nordeste e, na prática, empurram o Congresso para um recesso branco.
Em entrevista coletiva, Alcolumbre justificou que a sessão conjunta — que também deve apreciar 60 vetos presidenciais — só acontecerá mediante acordo de líderes partidários. Mas nos bastidores, o recado foi claro: sem pauta negociada, sem leitura da CPMI. A manobra é estratégica. Evita um enfrentamento direto com o Planalto e, ao mesmo tempo, joga a pressão para a oposição, que já começa a recuar.
Havia expectativa de que a sessão fosse realizada na próxima terça-feira (27), mas a falta de consenso emperra a instalação da comissão na prática.
As festas juninas, em especial o São João, têm valor político-cultural profundo no Nordeste. Deputados e senadores voltam às suas bases eleitorais, participam de arraiais e reforçam vínculos com prefeitos, vereadores e lideranças locais. É nesse ambiente festivo, onde a política se mistura com a tradição, que os líderes partidários enterram — ao menos temporariamente — a CPMI das fraudes no INSS.
Enquanto Recife aquece o comércio popular com tecidos, bandeirolas e roupas típicas, Brasília esfria a temperatura da comissão parlamentar. A simbologia é potente: quando o povo dança quadrilha, o Congresso dança conforme o compasso dos acordos.
Originalmente concebida como instrumento de desgaste contra o governo Lula, a CPMI perdeu tração entre os bolsonaristas. A Polícia Federal revelou um esquema bilionário de descontos ilegais em aposentadorias e pensões, iniciado em 2019, ainda sob Bolsonaro. O uso de biometria paralela e sistemas não auditados pelo INSS abriu caminho para fraudes estruturadas em convênios com entidades de aposentados — sem a anuência formal dos beneficiários.
Diante disso, o PL e seus aliados já veem a CPMI como uma armadilha. Líderes do partido consideram que a comissão, hoje, mais beneficia o Planalto do que a oposição. Um deputado ouvido reservadamente classificou o cenário como “abraço de afogados”.
A temperatura da CPMI também despencou após uma articulação silenciosa entre sete governadores e o ex-presidente Michel Temer, nos Estados Unidos. Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado, Ibaneis Rocha, Renato Casagrande, Eduardo Leite, Raquel Lyra e Cláudio Castro discutiram em Nova York uma nova engenharia política para 2026. A proposta: evitar o embate direto entre Lula e Bolsonaro e criar espaço para uma alternativa de centro.
Nesse tabuleiro, a CPMI seria usada não para ferir Lula, mas para repartir a conta da fraude com os dois governos. O risco, para o bolsonarismo, é sair como principal culpado no relatório final.
A ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, transformou o recuo da CPMI em vitrine política. Ao se posicionar contra a instalação da comissão, ela defende que o foco seja nas investigações da PF, que correm com maior grau de sigilo e efetividade. Gleisi argumenta que uma CPMI neste momento exporia provas e testemunhas prematuramente, podendo gerar nulidades processuais e dificultar a recuperação dos recursos desviados.
Nas redes, Gleisi foi direta: “Bolsonaro sancionou três vezes, sem veto, leis que abriram o INSS para esses ladrões. Nunca apurou denúncias sérias, ignorou ameaças de morte em 2020 e agora quer culpar o governo Lula.”
Segundo a AGU, já há mais de R$ 1 bilhão em pedidos de reembolso por parte de aposentados e pensionistas lesados pelas fraudes. Estima-se que 1,7 milhão de beneficiários foram atingidos. A pressão social é crescente, mas o governo calcula que manter as investigações sob controle é mais eficaz do que uma CPMI politizada.
O adiamento para o dia 17 de junho, durante o São João, simboliza o destino político da CPMI: o congelamento. A comissão que prometia ser munição contra Lula agora ameaça ser o espelho retrovisor do bolsonarismo, refletindo omissões e permissividades de uma gestão que abriu as portas do INSS para organizações fraudulentas — segundo a ministra responsável pela articulação política do governo Lula.
A estratégia do Planalto é clara: dividir a oposição, jogar com o tempo e blindar Lula. O bolsonarismo, por sua vez, tenta evitar que o passado o condene. Enquanto isso, Alcolumbre, mestre na arte de esfriar pautas indesejadas, mantém o controle da agenda.
O Brasil ainda espera por justiça e reparação. O Blog do Esmael seguirá de olho, com independência e profundidade, nos bastidores desse xadrez político.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




