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CPMI do INSS já não interessa a bolsonaristas; entenda

Brasília assiste a um novo capítulo no jogo político que cerca a CPI mista das fraudes no INSS. O Blog do Esmael apurou que a bancada bolsonarista no Congresso esfriou o interesse na instalação da comissão, que deveria investigar o escândalo bilionário de descontos ilegais em aposentadorias e pensões. O temor: virar alvo da própria armadilha.

A operação da Polícia Federal que revelou o esquema fraudulento mobilizou a oposição, que passou a pressionar pela CPMI. No entanto, líderes do PL agora consideram a comissão uma “cilada” política, capaz de aprofundar o desgaste do ex-presidente Jair Bolsonaro e de seus aliados. Nas palavras de um deputado ouvido reservadamente, o risco de um “abraço de afogados” com o governo Lula deixou o campo bolsonarista em alerta.

Nos bastidores do Congresso, circula a tese de que a CPMI serviria a uma engenharia política traçada por sete governadores que participaram, recentemente, do encontro de Nova York, nos Estados Unidos. A estratégia: dividir responsabilidades entre os governos Bolsonaro e Lula, neutralizar o embate direto entre os dois e pavimentar o surgimento de uma terceira via para 2026.

Estes são os ex-presidente Jair Bolsonaro e Michel Temer.
Estes são os ex-presidente Jair Bolsonaro e Michel Temer.

Na segunda-feira (19), o Blog do Esmael revelou que a movimentação dos governadores teve a articulação do ex-presidente Michel Temer (MDB). O conclave secreto na terra do Tio Sam contou comas presenças de Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Ronaldo Caiado (União Brasil-GO), Ibaneis Rocha (MDB-DF), Renato Casagrande (PSB-ES), Eduardo Leite (PSD-RS), Raquel Lyra (PSD-PE) e Cláudio Castro (PL-RJ). 

A reconfiguração eleitoral articulada nos bastidores ainda encontra obstáculos, tanto no Congresso quanto nas ruas. Entre bolsonaristas, cresce o receio de que uma CPMI com maioria governista transforme Bolsonaro no principal réu político do escândalo.

Enquanto isso, a ministra Gleisi Hoffmann, da Secretaria de Relações Institucionais, segue capitalizando politicamente com a contenção da CPMI. Segundo fontes do Planalto, a estratégia é clara: evitar que a comissão interfira na investigação da PF, que avança sobre convênios suspeitos firmados entre o INSS e entidades de aposentados desde 2019 — justamente no governo Bolsonaro.

Em publicação nas redes sociais, Gleisi não poupou o ex-presidente: “Bolsonaro sancionou três vezes, sem veto, leis que abriram o INSS para esses ladrões. Nunca apurou denúncias sérias, ignorou ameaças de morte em 2020 e agora quer culpar o governo Lula. Há uma diferença essencial: Bolsonaro deixou o ladrão entrar, Lula está acabando com a roubalheira.”

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Esta é a ministra Gleisi Hoffmann. Foto: Gil Ferreira/SRI

O presidente do Congresso Nacional, senador Davi Alcolumbre (União-AP), também contribui para o impasse. Nesta semana, ele declarou que não convocará uma sessão conjunta apenas para a leitura do requerimento de instalação da CPMI — ato indispensável para que a comissão comece a funcionar.

Alcolumbre afirma aguardar um acordo entre líderes partidários para montar uma pauta consistente. A sessão prevista para 27 de maio chegou a ser incluída na agenda oficial, mas foi retirada sem maiores explicações. “Se não fizerem pauta, eu não vou fazer reunião para ler um ofício”, disse o senador, sinalizando que o Planalto ainda tenta ganhar tempo.

Com a hesitação dos bolsonaristas, a CPMI ficou para as calendas, enquanto setores governistas — não a maioria representada por Gleisi — avaliam que a comissão pode ser útil para expor que as fraudes começaram na gestão anterior.

As investigações em curso revelam que o esquema de descontos indevidos teve início em 2019, com aval do próprio INSS. A autarquia ignorou regras de segurança e permitiu que entidades utilizassem biometria paralela e sistemas próprios para descontar mensalidades diretamente dos benefícios dos segurados — sem autorização formal.

Segundo a Advocacia-Geral da União (AGU), mais de R$ 1 bilhão já foi reivindicado por aposentados e pensionistas lesados. A estimativa se baseia nos relatos de 1,7 milhão de beneficiários prejudicados, que buscam reembolso junto ao governo.

O Planalto argumenta que uma CPI, neste momento, poderia atrapalhar o andamento das investigações policiais, além de comprometer a recuperação dos valores desviados. O argumento, defendido por Gleisi e pelo senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), é que a exposição precoce de documentos e testemunhos no ambiente político-partidário pode resultar em nulidades processuais e prejuízo para os lesados.

Na prática, a CPMI do INSS — idealizada pela oposição como trunfo contra o governo — caminha para se tornar mais um caso de tiro pela culatra. Diante da correlação de forças no Congresso e do avanço das investigações federais, a expectativa é que a comissão tenha destino semelhante ao do PL da Anistia: a gaveta.

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Presidente do Congresso Nacional, senador Davi Alcolumbre (União-AP)

O governo, por ora, joga com o tempo e com a divisão da oposição. Gleisi Hoffmann consolida-se como articuladora eficiente e Davi Alcolumbre, com sua conhecida habilidade de esfriar pautas indesejadas, segura as rédeas do Congresso.

Em vez de um palanque para desgastar Lula, a CPI ameaça ser um espelho retrovisor do bolsonarismo — refletindo omissões e permissividades de uma gestão que abriu as portas do INSS para quadrilhas que hoje lesam milhões de aposentados.

O Brasil segue à espera de justiça, transparência e responsabilidade institucional. E o Blog do Esmael continuará acompanhando, com independência e profundidade, cada movimento nos bastidores do poder.

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