Ricardo Cappelli, ex-interventor no 8 de Janeiro em Brasília e atual presidente da ABDI, afirmou que o tema da segurança pública estará inevitavelmente no centro da agenda de 2026, ressaltando que o país precisará enfrentar seus gargalos com planejamento nacional e integração institucional. O diagnóstico circula no momento em que o governo Lula avalia o nome de Cappelli para apoiar ações no Rio de Janeiro após a megaoperação autorizada por Claudio Castro, PL, que terminou com 121 mortes e embaralhou o cenário político.
Cappelli divulgou uma análise técnica com base em dados de fronteiras, logística, inteligência e sistema prisional. Ele descreveu um ambiente de alta complexidade no qual o crime transnacional aproveita lacunas de fiscalização e defende reforço de efetivos, integração de dados e reestruturação de protocolos de comunicação entre União, estados e municípios. Para ele, o Brasil necessita de respostas coordenadas, com cada instituição atuando de acordo com sua competência, sempre sob liderança federal e respeito à Constituição.
O ex-interventor recordou que presídios tornaram-se centros de comando criminoso e que rever regras de comunicação, isolar lideranças e ampliar a capacidade de inteligência são passos essenciais. Cappelli enfatizou a valorização de agentes, a responsabilização de quem colabora com o crime e a reorganização de territórios retomados com políticas permanentes, não ações esporádicas. Seu discurso, alinhado à visão de Estado, evita atalhos autoritários e reforça o papel da legalidade democrática.
Esse diagnóstico técnico ganha importância porque a extrema direita tenta capturar a narrativa da segurança após a operação que deixou 121 mortos. Pesquisas divulgadas por Paraná Pesquisas, Quaest e Datafolha mostraram que o episódio reorganizou percepções políticas e interrompeu ganhos recentes do governo Lula, que vinha de movimentos positivos como a resposta ao tarifaço de Donald Trump e o histórico aperto de mão com o presidente americano na Malásia. O Rio transformou-se novamente em vitrine de disputas e laboratório de agendas radicais.
O problema é que a necropolítica instalada no estado funciona como matriz de replicação nacional. A escalada violenta, legitimada por propaganda oficial, cria incentivos para que outras unidades da federação testem operações sem devido processo legal. A contaminação institucional opera como metástase e fragiliza o Estado Democrático de Direito. A Constituição prevê intervenção federal quando um governo estadual perde o controle, cenário descrito por especialistas diante da letalidade recorde.
Dentro desse ambiente, o PL Antifacção relatado por Guilherme Derrite, PP-SP, expôs um projeto de poder. As primeiras versões reduziram competências da Polícia Federal e submeteram seu trabalho a governadores, iniciativa criticada por parlamentares, juristas e pela própria corporação. O recuo mostrou que a estratégia da direita não era melhorar o enfrentamento ao crime, mas deslocar o eixo institucional para ampliar poder político de aliados.
A disputa ficou ainda mais explícita com a tentativa oculta de criar a figura da Polícia Federal Independente, espelho do Banco Central Independente, cuja autonomia produziu o maior juro real do mundo e impacto negativo sobre emprego, renda e desenvolvimento. Com a PF independente, analistas projetam riscos de captura institucional por grupos econômicos e políticos, além do enfraquecimento da capacidade de investigação de crimes complexos como os revelados pela Operação Carbono Oculto.
É nesse cenário que o Palácio do Planalto avalia o papel de Cappelli. Seu histórico, alinhado à legalidade constitucional e à governança democrática, o coloca como peça possível para reorganizar o ambiente no Rio, caso Lula opte por uma intervenção ou uma coordenação federal ampliada. Se trata de uma análise complementar e diagnóstico profissional que subsidia decisões de Estado.
Lula sabe que a pauta de segurança será decisiva em 2026. Deixar que laboratórios de violência conduzam a agenda nacional significaria entregar à extrema direita o tema mais sensível do país. Reposicionar o debate sob condução democrática é necessidade de governo, não desejo individual.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




