A seleção brasileira venceu o Japão por 2 a 1 nesta segunda-feira (29/6), com gol de Gabriel Martinelli nos acréscimos, avançou no mata-mata da Copa e abriu, no mesmo fluxo das redes, outra disputa menos esportiva: a da linguagem da urna, da contagem de votos e da confiança pública antes da campanha eleitoral.
A notícia não está no placar, que a torcida já viu. Está no ambiente digital que cerca o jogo. Quando futebol, meme e política passam a circular no mesmo feed, a camisa amarela deixa de ser só símbolo esportivo e vira atalho de identificação, mobilização e recado eleitoral. É nesse terreno que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o PL tentam falar com o público usando códigos populares, simples e altamente compartilháveis.
A Copa oferece aquilo que a política mais deseja na pré-campanha: atenção concentrada, emoção alta e linguagem de massa. Termos como virada, juiz, placar, apito, contagem e jogo limpo saem do estádio e entram na conversa sobre urna eletrônica, fiscalização e resultado. O problema começa quando a brincadeira deixa de ser brincadeira e passa a funcionar como peça de campanha ou como desinformação travestida de humor.
Pela regra do TSE, a propaganda eleitoral propriamente dita só pode ocorrer a partir de 16 de agosto do ano da eleição. Antes disso, a legislação permite menção a eventual candidatura, exaltação de qualidades pessoais, divulgação de atos parlamentares, debates legislativos e posicionamentos políticos, inclusive em redes sociais, blogs, sites e aplicativos, desde que não haja pedido explícito de voto. Esse ponto é central porque muita peça publicada na pré-campanha tenta parecer só comentário, quando na prática já empurra o eleitor para uma escolha.
O tribunal também deixou mais claro que o pedido de voto não depende apenas da frase “vote em”. Ele pode estar embutido em expressões equivalentes, em comandos disfarçados e em construções que transmitam o mesmo conteúdo. Em outras palavras: trocar o santinho pelo meme não elimina o problema jurídico.
Na internet, a fronteira fica ainda mais sensível. O impulsionamento de conteúdo político-eleitoral na pré-campanha é admitido, mas com trava: precisa ser contratado diretamente por partido ou pré-candidato, identificado como conteúdo impulsionado, com transparência, moderação de gastos e sem pedido explícito de voto. Já o impulsionamento para atacar adversário ou espalhar conteúdo falso não entra nessa permissão.
No WhatsApp, o TSE tem diferenciado alcance e dano. Mensagens em grupos pequenos e sem prova de ampla circulação podem ficar no campo da fala restrita. Mas a jurisprudência do tribunal mostra que conteúdo ofensivo, falso ou descontextualizado, quando espalhado em grupos numerosos e com potencial de viralização, pode configurar propaganda irregular ou negativa. A consequência prática é simples: o que parece “só um meme do grupo” pode ganhar relevância jurídica quando escala.
É aí que a Copa se torna um laboratório político. O torcedor jovem, o eleitor que vive no celular e o criador de conteúdo já não recebem o tema eleitoral apenas por pronunciamento oficial ou propaganda clássica. Recebem por corte, bordão, montagem, reação, piada e linguagem de torcida. Quem conseguir colar sua narrativa nesse formato larga na frente no debate público, ainda que a campanha formal nem tenha começado.
Por isso, a disputa não é apenas sobre voto, mas sobre confiança. A Justiça Eleitoral entendeu que não basta responder tecnicamente sobre a urna; precisa falar numa linguagem que o eleitor comum reconheça e compartilhe. O PL, por sua vez, sabe que qualquer debate sobre fiscalização, contagem e segurança das urnas mobiliza sua base e mantém o tema vivo no ambiente digital. A batalha, portanto, é menos pelo formulário jurídico e mais pelo imaginário popular.
A vitória do Brasil sobre o Japão mostrou como um gol nos acréscimos ainda é capaz de paralisar o país. A política quer pegar carona nessa energia. O desafio do TSE é impedir que a emoção do jogo seja convertida em atalho para propaganda disfarçada ou para ataques à integridade do processo eleitoral. Na Copa e na eleição, a diferença entre festa e manipulação pode estar em uma legenda, um botão de impulsionamento e um grupo de WhatsApp.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




