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Sob vigilância eletrônica e isolado em casa após o pôr do sol, Jair Bolsonaro (PL) voltou à cena pública nesta terça-feira, 29 de julho, ao participar discretamente de uma motociata em Brasília. O ex-presidente, no entanto, não discursou. Apenas circulou entre apoiadores em silêncio, em meio ao barulho das motos e à solidão política que o cerca desde que se tornou réu na principal ação penal da tentativa de golpe de Estado em 2022.
A presença de Bolsonaro no Capital Moto Week, maior evento do tipo na América Latina, foi uma tentativa clara de manter sua base engajada. Mas a estratégia deu sinais de desgaste: a motociata foi esvaziada, e o silêncio do ex-mandatário só reforçou o clima de fim de linha no bolsonarismo.
Tornozeleira, toque de recolher e redes bloqueadas
Desde 18 de julho, o ministro Alexandre de Moraes impôs uma série de medidas cautelares a Bolsonaro:
- Tornozeleira eletrônica obrigatória;
- Confinamento noturno, das 19h às 7h;
- Proibição de sair de casa aos finais de semana;
- Banimento de redes sociais.
A estratégia do STF é clara: conter a capacidade de articulação política do ex-presidente e preservar a estabilidade institucional enquanto o julgamento avança.
Mauro Cid pede perdão, chama golpe de “nefasto” e entrega Bolsonaro
A maior dor de cabeça de Bolsonaro hoje atende pelo nome de Mauro Cid. O tenente-coronel, ex-ajudante de ordens e principal delator da trama golpista, apresentou suas alegações finais ao Supremo.
No documento, Cid:
- Chamou os atos de 8 de janeiro de “nefastos”;
- Pediu perdão judicial ou pena de até dois anos;
- Alegou ter sido obediente a ordens superiores, sem dolo;
- Afirmou ter sido tratado como “traidor” por bolsonaristas após colaborar com a Justiça.
A delação de Cid sustenta a tese da Procuradoria-Geral da República (PGR) de que Bolsonaro liderava o núcleo decisório da tentativa de ruptura institucional.
STF projeta condenação de mais de 40 anos
Nos bastidores do Supremo, ministros já dão como certa a condenação de Jair Bolsonaro. O ministro André Mendonça, indicado por Bolsonaro ao STF, já admite que a pena poderá ultrapassar 40 anos de prisão.
O debate agora gira em torno do regime de cumprimento:
- Prisão domiciliar é vista como cenário mais provável, em função da idade e do estado de saúde de Bolsonaro.
- Setores da Corte, no entanto, defendem regime fechado parcial, sob monitoramento intensivo, como forma de preservar a credibilidade institucional.
Aliados do ex-presidente preveem que a sentença condenatória poderá sair ainda neste segundo semestre, inviabilizando o discurso de candidatura ao Planalto em 2026. Bolsonaro já está inelegível até 2030.
Golpismo recua, mas base ainda promete reagir
Mesmo fragilizado judicialmente e politicamente isolado, Bolsonaro ainda é visto como uma ameaça pela cúpula do Judiciário. Grupos bolsonaristas planejam novos atos em Brasília nos próximos dias, inclusive com foco no Congresso Nacional.
Mas o fôlego é curto. Com Carla Zambelli presa na Itália, Mauro Cid pedindo perdão, e aliados como Filipe Martins já condenados ou investigados, o cerco se fecha de forma cada vez mais densa sobre o núcleo duro do bolsonarismo.
Bolsonaro se desmilinguiu
A tentativa de Bolsonaro de manter-se em cena por meio de motociatas não mascara o desmoronamento jurídico e político em curso. A operação de desmobilização institucional do bolsonarismo, liderada pelo STF, parece irreversível. O ex-presidente, outrora onipresente nas redes, hoje precisa pedir licença até para sair de casa. O Brasil entra, enfim, na fase final de acerto de contas com o golpismo.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




