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Lula enquadra escala 6×1, Congresso sente pressão social

O presidente Lula (PT) entrou no debate da escala 6×1 com uma mensagem que mira o Congresso e o mercado ao mesmo tempo: reduzir jornada passa por negociação entre trabalhadores, empresas e governo, para evitar um texto “aberto” que vire avalanche de disputa na Justiça do Trabalho. O recado foi dado na terça-feira (3), na abertura da II Conferência Nacional do Trabalho, em São Paulo, quando o Planalto sentiu que a pressão social já virou pauta de rua, de sindicato e de rede, e começa a encostar no Legislativo.

Lula tentou enquadrar o tema como política de desenvolvimento, não como guerra cultural. Disse que o país não chega ao “clube dos desenvolvidos” se o trabalhador não melhorar de vida, e defendeu construir “o possível” numa mesa de negociação, com regra que caiba por setor, para não transformar o governo em refém de uma polarização permanente.

Na base social do governo, a cobrança é por velocidade, e a reação às manchetes contrárias virou combustível político nas redes.

A ministra Gleisi Hoffmann (PT-PR) entrou de cabeça na defesa do fim da escala 6×1 e da redução da jornada semanal para 40 horas, batendo de frente com o que chamou de “noticiário do terror” em parte da grande imprensa.

Em sequência de posts, ela acusou Folha, Valor e Estadão de manipular dados e espalhar previsões “sem base” sobre demissões e inflação, lembrou que a pauta é histórica da classe trabalhadora e citou números atribuídos ao Ipea, com impacto na folha entre 1% e 6,6% conforme o setor, para sustentar que a economia suporta a mudança.

Para Gleisi, a disputa é menos técnica do que moral: “ganância por lucros” não pode valer mais do que o direito da maioria a ter vida além do trabalho.

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Ministra Gleisi Hoffmann, das Relações Institucionais. Foto: Blog do Esmael

Nos bastidores, a leitura é simples. O 6×1 tem apelo popular porque mexe no tempo de vida, no cansaço e na saúde mental de quem sustenta o comércio e os serviços. Ao mesmo tempo, assusta parte do empresariado pelo custo de reorganização de turnos. O Planalto tenta ocupar o meio do caminho, puxando o debate para a arena da negociação coletiva, onde sindicatos e empresas podem calibrar transições e exceções sem que a política “estoure” no colo do governo.

A reação do Congresso vem em duas pistas. No Senado, uma proposta citada como caminho institucional é a PEC 148/2015, com previsão de mudança gradual e ampliação do descanso semanal, reduzindo a carga máxima semanal de 44 para 36 horas (sem contar extras). A matéria aparece como pronta para plenário, e o relator Rogério Carvalho (PT-SE), líder do governo, chegou a dizer que o Planalto pode enviar um novo projeto de lei com urgência constitucional para acelerar a tramitação.

É aí que entra a “pressão social” que o Congresso sente. Parlamentar nenhum gosta de votar contra um tema que conversa direto com o cotidiano, mas muitos tentam empurrar a decisão para “estudos”, “impacto setorial” e “transição”. O resultado costuma ser esse: quem trava pede prudência e protela, quem acelera quer data e texto objetivo.

Dentro do governo, Simone Tebet (MDB-MS), ministra do Planejamento, tentou blindar a discussão contra o alarmismo. Disse que estudo determinado por Lula indica ser possível encerrar a escala 6×1 sem redução salarial, e tratou como desconhecimento do país afirmar que a mudança “quebraria” o Brasil.

Para sustentar o discurso de que dá para mudar sem “aventura”, o Planalto acoplou a pauta do tempo de trabalho à agenda de emprego e qualificação. Na mesma abertura, o governo citou saldo de 112.334 empregos formais em janeiro, com mais de 48,5 milhões de vínculos ativos, e empurrou a QualificaBR como vitrine para formação profissional em rede pública.

O ponto político é que o 6×1 virou teste de força. Sindicatos querem calendário e compromisso, empresas querem flexibilidade e previsibilidade, o Congresso mede custo eleitoral, e o Planalto tenta conduzir sem ser engolido por um debate que pode escapar do controle, especialmente se virar bandeira que cresça fora dos gabinetes.

Portanto, Lula acerta ao tratar jornada como tema de negociação com foco em dignidade, e erra se achar que apenas “mesa” resolve quando a sociedade já empurra por mudança concreta. O Congresso vai ter que escolher se ouve o país ou se terceiriza o desgaste.

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