O ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), pode transformar a eleição para o governo de São Paulo numa zona da morte para Tarcísio de Freitas (Republicanos), porque reabre o confronto de 2022 no maior colégio eleitoral do país, com peso direto na disputa presidencial de 2026.
A simples hipótese de Haddad entrar no jogo muda o eixo da campanha. Tarcísio deixa de ser apenas um governador buscando reeleição e vira o principal alvo do campo lulista em São Paulo, com cobrança diária sobre gestão, impostos, serviços e prioridades.
A fagulha veio das declarações do próprio Haddad. Ele disse que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) marcou uma reunião com ele e Geraldo Alckmin (PSB), vice-presidente da República, para tratar do cenário paulista. O recado para o PT foi interpretado como “organizar a casa” e reduzir a incerteza do palanque no estado.
Não é detalhe. São Paulo é a vitrine mais cara da política brasileira. Quem vence ali costuma ganhar fôlego, narrativa e dinheiro. Quem perde sai menor, mesmo quando mantém bases em outras regiões.
Em 2022, o roteiro foi duro para o PT. Tarcísio venceu Haddad no segundo turno, com 55,34% dos votos válidos contra 44,66%, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Foi uma vitória ancorada no bolsonarismo e numa frente conservadora montada para impedir a retomada petista no Palácio dos Bandeirantes.
Quatro anos depois, a disputa teria outro tempero. Tarcísio não seria mais candidato “novo”, embalado por padrinhos e novidade. Seria avaliado como governo. E, em campanha, governo vira alvo, com planilha, fila, tarifa e imposto.
Haddad, por sua vez, entraria com dois trunfos e um risco. Os trunfos são o recall na capital e na região metropolitana, além da transferência política de Lula em São Paulo. O risco é carregar, na testa, a agenda econômica do governo federal, num estado onde a direita sabe transformar imposto em arma eleitoral.
A conversa já saiu do terreno abstrato. No Flow, Haddad cutucou Tarcísio ao lembrar que o ICMS é imposto estadual e que o debate sobre compras internacionais virou briga de narrativa, com governadores tentando empurrar a conta para Brasília. Foi uma alfinetada com cara de campanha, escolhida a dedo para falar com o eleitor paulista.
O ponto central é simples. Se Haddad for mesmo candidato, Tarcísio perde margem de manobra. Um governador que sonha com voo nacional não pode sangrar em São Paulo. E um governador que pretende reeleição não pode entrar em segundo turno “no limite”, porque a polarização puxa a campanha para o campo de Lula e Bolsonaro.
Dito isso, a zona da morte não nasce do slogan. Ela nasce do fato de São Paulo ser, ao mesmo tempo, ringue local e termômetro nacional. Quem tropeça ali paga duas vezes: no estado e no país.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




