Bolsonaro ganha tempo e aprofunda o cenário de ‘equilíbrio catastrófico’ no país

Por Milton Alves*

A segunda (29) e a terça-feira (30) foram marcadas por uma intensa movimentação na conturbada e volátil conjuntura política. Teve de tudo: A conhecida e recorrente tensão pré-golpe que invade as redações, boatos de decretação de estado de sítio, de desmoronamento do governo Bolsonaro e ameaças de motins de PMs na Bahia e em outros estados. Muito ruído interferindo nas ondas curtas da cena política institucional, mas sem condições, por ora, de um desenlace decisivo da crise em curso. Todavia, os fios seguem desencapados e o risco de um choque de alta voltagem é real, possível.

Bolsonaro é o epicentro da crise

O governo do presidente Jair Bolsonaro é o epicentro da crise, personifica a própria dinâmica da crise. Bolsonaro, sobretudo, fez uma aposta na sua sobrevivência política, alternando ameaças autoritárias com ações explícitas de fisiologia política.

A opção de Bolsonaro é clara: diante do tamanho da crise, de múltiplo caráter – sanitária, institucional, econômica e social – ele se movimenta no sentido de garantir a continuidade de seu governo, afastando os riscos imediatos de um impeachment.

O autogolpe é um projeto sempre acalentado pelo núcleo duro do bolsonarismo – no momento, parcialmente, cancelado.

Centrão

O governo da extrema direita atravessa um crescente desgaste político e sem reunir forças para um autogolpe, aprofunda a relação com o bloco político do Centrão no Congresso, liderado pelo presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL). A mexida ministerial de segunda-feira visava, principalmente, atingir esse objetivo. A nomeação da deputada Flávia Arruda (PL-DF) foi o rito final dessa empreitada pela sobrevivência. Apesar de Bolsonaro agir de forma improvisada e tosca, é uma demonstração de realismo, de cálculo político.

A queda de Ernesto Araújo do Ministério das Relações Exteriores já estava precificada, era uma questão tempo, de ocasião. A oportunidade surgiu com o ataque vil de Araújo a senadora Kátia Abreu (PP-TO).

Tudo indica que Bolsonaro vai cultivar uma relação mais próxima do Centrão. O custo dessa relação será precificado a cada momento, com a oscilação permanente do valor da moeda de troca. E muita gente da classe média foi arrastada pelo discurso “boa noite cinderela” do bolsolavajatismo durante a campanha eleitoral de 2018, que vendeu o peixe podre do fim da prática do “toma lá, dá cá”.

Apesar de ganhar sobrevida política, o casamento com o Centrão no Congresso abala no plano simbólico o discurso contra a velha política do bolsonarismo. É uma fraquejada na mística do bolsonarismo raiz, de se apresentar como uma corrente política antissistêmica.

Militares

A relação de Bolsonaro com as altas patentes militares é de “unidade e luta”, ajustando e negociando, a cada momento, o consórcio iniciado ainda em 2016. Os militares foram uma das forças decisivas para golpear o governo Dilma Rousseff. Há diferenças de métodos de ação, de atuação política, mas as forças militares têm a mesma visão de mundo do bolsonarismo. No plano ideológico, compartilham da leitura reciclada do anticomunismo [marxismo cultural, globalismo, novos direitos civis] e ainda operam no modo da velha cartilha do inimigo interno – ou seja, o povo e a esquerda.

Além disso, Bolsonaro ainda goza de prestígio na média e baixa oficialidade. Pesa também o espaço conquistado na máquina estatal, a condução e o controle de grandes projetos no governo e o alinhamento com o imperialismo norte-americano.

Apesar do barulho com a demissão do general Fernando Azevedo do Ministério da Defesa – e o gesto demissionário dos comandantes militares, o comando das Forças Armadas [FFAA] e o governo bolsonarista tendem para uma fórmula acordada para a indicação do novo comandante do Exército, no entanto, segue um tortuoso cabo de guerra sobre o nome. Marinha e Aeronáutica apresentaram nomes de agrado do presidente.

É importante verificar ainda a intensidade, a adesão, e o alcance na caserna das comemorações do golpe militar de 1964, que ocorrerão nesta quarta-feira (31). Uma provocação política contra as forças democráticas e uma aberta afronta às instituições de estado, que se fingem de mortas.

Andar de cima, os donos do dinheiro

Chamou atenção o silêncio das entidades empresariais. Nada de nota, nem uma linha sobre os últimos acontecimentos políticos. O fato é revelador da conduta das classes dominantes brasileiras, que aparentam manifestar algum “nojinho” dos maus modos do governo bolsonarista, mas continuam apostando na agenda do pinochetista Paulo Guedes de “passar a boiada” das privatizações, do desmonte dos serviços públicos, do arrocho fiscal contra os pobres, do criminoso teto dos gastos e da desregulamentação ambiental.

Afinal, o balanço financeiro de 2020 revelou os lucros fabulosos acumulados pelos bancos, pelo agronegócio, pelos setores vinculados ao comércio exterior, os grandes atacadistas, madeireiros e dos vendedores de armas, do comércio de luxo, entre outros.

A “frente ampla da Faria Lima” que divulgou uma cartinha de economistas, serviçais de luxo de banqueiros, em pleno auge do ciclo infernal do morticínio pela Covid-19, defendendo a política econômica genocida de Guedes vai bem e enchendo os cofres mesmo no auge da pandemia.

O governo da extrema direita continua funcional para o andar de cima, que pretende ainda garantir mais fatias do butim, avançar no que resta de patrimônio estatal e bens públicos.

Bolsonaro carrega o mau hálito e o cheiro de sangue e fezes dos porões, mas os mais ricos e poderosos do Brasil usam perfumes tipo Acqua de Gio [Armani], Suprême [Carolina Herrera], Opium [YSL], fragrâncias exclusivas Paco-Rabanne, e não se importam com odores da carnificina neoliberal, que arrasta milhões para a fome e o desterro da miséria.

Portanto, o andar de cima não desembarcou de seu apoio ao governo bolsonarista, apesar de algum dissimulado mal-estar.

Estados Unidos e China

O governo de Joe Biden, apesar de sinalizar algum desconforto com Bolsonaro, vai atuar no sentido de estabelecer uma relação cooperativa. A tendência de retomada democrática em diversos países do continente empurra para o entendimento e parceria. Além disso, o governo norte-americano pode usar o governo da extrema direita para atrapalhar o avanço da China na América do Sul.

Por sua vez, a China, com profunda relação comercial com o Brasil, vai continuar atuando de forma pragmática. Apesar da turbulência política e até dos desaforos bolsonaristas, os chineses seguirão aplicando o tradicional método da sua treinada diplomacia de separar os negócios das contendas ideológicas. É uma experiência de décadas. O que valeu para o Chile de Pinochet, para os sanguinários generais de Mianmar, é o mesmo princípio que rege a relação com o governo bolsonarista.

Fator Lula e a saída pela esquerda

A entrada em cena de Lula, após decisão do ministro do STF Edson Fachin, que anula as condenações do ex-presidente operadas no âmbito da força-tarefa da Lava Jato de Curitiba, mexeu profundamente com as peças do tabuleiro político. De imediato, esvaziou os projetos de candidaturas no campo da oposição de esquerda e centro-esquerda. E também na velha direita neoliberal, o que já provocou a desistência de Doria (PSDB) e do apresentador da Rede Globo, Luciano Huck. A direita neoliberal ainda procura um candidato para chamar de seu.

A polarização entre Bolsonaro e Lula é o traço marcante da conjuntura. Segundo diversas pesquisas e sondagens, o ex-presidente ganha de Bolsonaro em todos os cenários simulados. É o opositor com maior apelo entre os pobres para enfrentar o genocida. Lula ainda enfrenta armadilhas judiciais, que estão sendo desmontadas com a revelação dos crimes da Lava Jato, mas Bolsonaro já não corre sozinho na raia.

Uma tarefa decisiva é unir a esquerda, organizar uma agenda de mobilizações em defesa da vida, da vacinação em massa, pelo emprego e o auxílio emergencial aos desempregados e informais. Impulsionar uma vigorosa campanha pelo Fora Bolsonaro, convocando atos de rua pelo impeachment. Preparar um 1º de maio de luta, palanque sem a presença de políticos burgueses da “frente ampla” – com marchas e concentrações de rua.

Lula é a saída pela esquerda, a única que abre uma via democrática e popular para derrotar o autoritarismo e o neoliberalismo.

Equilíbrio catastrófico perdura

A situação política aprofunda uma espécie de “equilíbrio catastrófico”, um conceito desenvolvido pelo teórico comunista Antonio Gramsci. No momento, Bolsonaro ainda não reuniu as condições para executar um golpe de força, esmagando a oposição de conjunto. Uma solução de tipo “cesarista” só seria possível com a arbitragem decisiva das Forças Armadas e dos donos do dinheiro no país. E também as forças de oposição à esquerda e à direita não reúnem as condições para derrotar o governo Bolsonaro – via impeachment ou por uma rebelião popular.

Todos indicadores sanitários e econômicos tendem a piorar nas próximas semanas, prolongando ainda mais as agruras da população trabalhadora e pobre, que ainda não se movimenta na direção de uma revolta generalizada ou de intenso protesto provocado pelo desespero. O que pode ser apenas uma questão de tempo.

*Milton Alves é ativista político e social. Autor dos livros ‘A Política Além da Notícia e a Guerra Declarada Contra Lula e o PT’ (2019), ‘A Saída é pela Esquerda’ (2020) e de ‘Lava Jato, uma conspiração contra o Brasil’ (2021) – todos pela Kotter Editorial. Escreve semanalmente em diversas mídias progressistas e de esquerda.