Bolsonaro diante da tempestade perfeita

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Jorge Gregory*

Passadas as eleições municipais, frias em certa medida, em decorrência da pandemia, o clima político promete esquentar para Bolsonaro neste final de ano e início do próximo. Não tendo obtido êxito em constituir o seu próprio partido, o Aliança, sai deste processo ainda mais dependente do chamado Centrão para assegurar a sua sobrevivência até 2022 e sonhar com uma possível reeleição. Os poucos candidatos assumidamente bolsonaristas, dispersos nos vários partidos centristas, sofreram fragorosas derrotas. Mas não é só o resultado eleitoral que deve (ou deveria) estar provocando pesadelos no Capitão. Uma série de fatos convergem para colocá-lo, em curto espaço de tempo, diante da “tempestade perfeita”, que o levará a resultados desastrosos, totalmente opostos aos esperados.

O primeiro fato é a posse de Joe Biden, que se dará no dia 20 de janeiro próximo. A mudança de comando na maior potência militar do mundo tem uma série de implicações para o governo brasileiro. Obviamente não haverá um rompimento político ou diplomático, pois nas relações externas norte-americanas, assim como nas chinesas, prevalece o pragmatismo relacionado aos interesses econômicos e geopolíticos. No entanto, o discurso de extrema direita de Bolsonaro ficará internacionalmente isolado, pois, não tendo mais a proteção de Trump, até mesmo Netanyahu dificilmente fará coro ou lhe dará respaldo. O isolamento externo tornará insustentável a permanência no governo de figuras como Ernesto Araújo ou Ricardo Salles. Fritá-los, no entanto, é entrar em rota de colisão com sua base ideológica.

Mas não é só do ponto de vista ideológico que Bolsonaro ficará isolado. O novo governo norte-americano não deixa dúvidas de que se somará aos governos europeus na pressão em razão das políticas ambientais adotadas pelo governo brasileiro. Tal pressão gerará incômodos internos, pois afetará negócios de bases bolsonaristas, como, por exemplo, o agronegócio. A já fragilizada economia brasileira afundará ainda mais em decorrência do isolamento internacional. Some-se ainda o fato de que os Estados Unidos passarão a adotar fortes políticas de enfrentamento à pandemia, projetando Bolsonaro como a maior expressão mundial do negacionismo e da ignorância. Muito provavelmente os brasileiros passarão a sofrer restrições para entrar em outros países.

O segundo fato é o inevitável agravamento da crise sanitária. A transmissão do vírus e o número de óbitos, que tinham entrado em declínio no terceiro trimestre, voltaram a crescer com o relaxamento das restrições de atividades e do isolamento social, agravados pelas concentrações durante as eleições municipais e, agora, ainda mais, por causa das viagens e aglomerações comerciais diante das festas de final de ano. A velocidade desta nova onda é de tal magnitude que podemos chegar ao final do ano já superando o pico da primeira e pior, com a maioria dos hospitais de campanha desativados. Com a entrada do verão e o inevitável movimento nas praias e depois o carnaval dificilmente teremos uma desaceleração. Ainda que as festas do Rei Momo, promovidas pelos governos estaduais e municipais venham a ser suspensas, será impossível impedir as particulares e clandestinas.

Dirão alguns, em especial os bolsonaristas, que estão entrando em desespero, que as vacinas estão aí e conterão a pandemia. Ledo engano! Ainda que alguma vacina, ou mesmo várias, estejam à disposição no início de janeiro, será necessária toda uma operação de guerra, de organização logística, para iniciar o processo de imunização. Enquanto Bolsonaro afirma que a pandemia está no fim e se preocupa em brigar com o Dória, sequer o problema de aquisição de seringas o general da saúde sabe como resolver, quanto mais como receber, armazenar e distribuir as vacinas.

Ainda que tenhamos a sorte de que lá pelo final de fevereiro se inicie a vacinação, pelo reduzido número de vacinas que estarão disponíveis, terá que ser um processo escalonado. Como não desenvolvemos a nossa própria vacina, será necessário disputar as estrangeiras com o resto do mundo, de modo que, tendo que iniciar pelos profissionais de saúde, depois os mais idosos, grupos de alto risco e então ir avançando nessa escala, talvez ao final de 2021 ainda não tenhamos toda a população imunizada. Se a vacina pode reduzir o número de mortes, as mortes também aumentam na mesma velocidade da propagação do vírus, de forma que a imunização, nos primeiros meses, será apenas um freio que reduzirá tão somente a aceleração da doença.

Com o agravamento da crise sanitária e o isolamento internacional, com uma economia já em frangalhos será inevitável o aprofundamento da crise nesse campo. Ainda que o auxílio emergencial tenha atenuado os efeitos do desastre econômico sobre a população mais pobre, o que até elevou momentaneamente a popularidade de Bolsonaro, a inflação acelera, pequenas empresas e negócios não conseguem retomar suas atividades e o desemprego não diminui. O ministro da Economia, mais perdido que cachorro que caiu do caminhão de mudança, não consegue apontar rumo algum e já está desmoralizado até mesmo entre as elites e o setor financeiro. Com o agravamento da crise econômica e a falta de perspectivas quanto à crise sanitária, as prováveis consequências serão possíveis conflitos sociais e crise também nessa área.

O terceiro fato é a situação cada vez mais complicada do filho 01 nas falcatruas da rachadinha. O caso chegou definitivamente ao Planalto com o envolvimento direto da ABIN, conforme denunciou a revista Época na semana passada, na tentativa de obstruir a justiça e defender o filho do Presidente. Não há mais como Bolsonaro afirmar que é um problema do filho e não seu, pois este fato novo o envolve até o pescoço no problema. Por debaixo do tapete das inconfessáveis fraudes de gabinete, praticadas há anos pelo pai e os três filhos, está um mar de lama que revela que o clã Bolsonaro nada mais é que o representante das milícias cariocas e do que há de mais podre nos organismos de segurança do Rio de Janeiro.

Mas o fato que poderá combinar todos os demais e gerar a “tempestade perfeita” para Bolsonaro é a sucessão na presidência da Câmara dos Deputados. Aqui é fundamental lembrarmos do curso dos acontecimentos que conduziram Dilma Rousseff ao impeachment.

Com a economia em dificuldades e o desencadeamento de protestos de massas, ainda assim a ex-presidente obteve a reeleição por uma pequena margem de votos. A situação delicada recomendava a ampliação da base de governo, mas Dilma assumiu formando o núcleo de articulação política com Mercadante, Pepe Vargas e Rosseto, que fizeram um movimento exatamente no sentido contrário, o de buscar afirmar, a qualquer custo, a hegemonia do PT. Entraram em rota de colisão com o centro, inclusive seu principal aliado eleitoral, o PMDB, não abrindo mão da presidência da Câmara. A direita, sedenta de vingança por mais uma derrota, não perdeu a oportunidade, aliando-se ao centro dissidente. Eduardo Cunha foi eleito e o resto da história todos conhecem.

Isolado internacionalmente, com graves problemas familiares, sem uma solução para a crise sanitária e principalmente para a econômica e com uma base no Congresso constituída de muitos bolsonaristas de ocasião e uma ínfima minoria de bolsonaristas raiz, o general Ramos se lança numa cruzada desesperada para tentar fazer a sucessão de Maia na Câmara. Não só joga Bolsonaro ainda mais no colo do Centrão, mas também entra em rota de colisão com a direita tradicional.

A ganância de parcela do Centrão e o desespero do governo em barrar qualquer ameaça de impeachment pode, nestes próximos dois meses, gerar um movimento contrário, de formação de uma ampla aliança, unindo oposição e direita contra ele. A derrota governista neste embate determinará o futuro do governo e poderá configurar a “tempestade perfeita” para Bolsonaro, ou seja, o desastre total de seu governo. Até fevereiro saberemos que rumos o país tomará.

*Jorge Gregory é jornalista e professor universitário, trabalhou no Ministério da Educação (MEC).

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