Por Esmael Morais

Coluna do Luiz Cláudio Romanelli: A banalização do mal

Publicado em 19/10/2015

Foi uma quadra infeliz da história, marcada pelo fim das liberdades individuais, pela censura, pela proibição das manifestações, extinção de partidos políticos, intervenção no poder judiciário.

Na ditadura nasceu o crime organizado, cresceu a promiscuidade entre a polícia e os marginais. A ditadura promoveu e depois anistiou torturadores, como o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, morto na semana passada, sem ser punido pelos crimes que cometeu. Ustra comandou entre 1970 e 1974, o Destacamento de Operações de Informações do II Exército, em São Paulo, que foi o principal centro de tortura, desaparecimento e morte de oposicionistas durante a ditadura. Assim como outros torturadores, Ustra alegou que apenas cumpria ordens.

Além de todas as atrocidades que ainda marca a vida do país, de forma indelével, a ditadura ceifou o surgimento de toda uma geração de novas lideranças que poderiam, de forma significativa, contribuir em todos os campos de atuação na construção de uma nação soberana. Retraiu-se o país por 20 poucos anos e muitos lutaram para a retomada do estado democrático de direito.

Foi uma luta árdua, difícil e hoje fico perplexo quando vejo por aí gente defendendo a volta do regime militar – que deixou um legado já pontuado nas palavras acima. Como também fico atônito ao verificar o resultado de pesquisa do Datafolha, que mostra que 54% dos moradores do Sul do país acreditam que “bandido bom é bandido morto”.

Sem dúvida, a sociedade está anestesiada pela violência, a tal ponto que está perdendo a capacidade de se chocar com a onda de crimes contra a vida. A violência virou algo trivial, corriqueiro, banal. Vive-se, sim, a banalização do mal, conceito criado pela filósofa alemã, naturalizada americana, Hannah Arendt.

Em 1961, Hannah acompanhou o julgamento do nazista Adolf Eichmann em Israel, acusado de genocídio e crimes contra a humanidade durante a segunda guerra mundial. Dois anos depois do julgamento, a filósofa lançou um livro baseado em suas observações – “Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal”.

Hannah Arendt concluiu que Eichmann – que durante o julgamento ficou confinado numa cabine de vidro – não era um monstro, sádico ou demoníaco. Era um homem normal, um burocrata que cumpria ordens sem quaisquer questionamentos. Organizar o transporte de milhares de judeus para os campos de concentração era apenas uma questão de logística e ele cumpria as ordens de superiores sem pensar. Para ela, isto só podia ser compreendido pela banalização do mal que se instala no vácuo do pensamento, trivializando a violência. O homem na cabine de vidro era um homem comum, tão comum quanto a muitos outros. Era um funcionário cordato, servil e obediente e também um assassino eficiente.

Em paralelo ao que Hannah Arendt escreveu 1961, pode-se concluir que hoje, em pleno século XXI, 70 anos depois do fim da segunda guerra, volta-se a viver em tempos sombrios. Se na Alemanha nazista a omissão da sociedade permitiu a ascensão nazista e o holocausto, por aqui e em outros de países de todos os continentes, a criminalidade já não surpreende, mas revolta.

A tal ponto que há os ruidosos e furiosos defensores da volta do regime de exceção, os que aplaudem torturadores, os que apoiam o “bandido bom é bandido morto”. E o fazem descaradamente, sem qualquer pudor ou trava social. São homens comuns e não estão em redomas de vidro. Nesses tempos bicudos, delator vira ídolo, justiceiro vira herói e todos são culpados, até que prova em contrário. Consagra-se a intolerância. Trivializa-se a violência. Há um vácuo de pensamento. E há o silêncio dos bons. E é neste caldo de paranoia social que cresce e prospera a semente do totalitarismo.

*Luiz Cláudio Romanelli, advogado e especialista em gestão urbana, ex-secretário da Habitação, ex-presidente da Cohapar, e ex-secretário do Trabalho, é deputado pelo PMDB e líder do governo na Assembleia Legislativa do Paraná. Escreve às segundas-feiras sobre Poder e Governo.