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Trump impõe plano de paz e pressiona Netanyahu em Gaza

A proposta de paz apresentada por Donald Trump promete encerrar o conflito em Gaza, mas obriga Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, a escolher entre a pressão internacional pela trégua e a sobrevivência de seu governo, sustentado por partidos ultranacionalistas que rejeitam concessões a palestinos.

O plano, composto por 20 pontos, prevê liberação simultânea de reféns israelenses e prisioneiros palestinos, retirada militar em fases, reconstrução de Gaza sob um conselho de tecnocratas palestinos supervisionado por potências árabes e por um “Conselho da Paz” liderado pelo próprio Trump. Em troca, Hamas deveria entregar armas e renunciar ao poder político no enclave. A proposta, anunciada em Washington, foi apresentada como um ultimato de 72 horas, com aval de países como Egito, Catar e Turquia.

O grupo islamita respondeu afirmando aceitar a libertação dos reféns e a formação de uma autoridade civil provisória, mas evitou se comprometer com o desarmamento e com prazos. Mesmo assim, Trump proclamou que “a paz está próxima”, ordenando que Israel cessasse os bombardeios para viabilizar a operação humanitária e a saída dos reféns. O gesto expôs um raro embate direto entre o presidente dos Estados Unidos e seu aliado israelense.

Netanyahu reagiu com ambiguidade. Declarou-se disposto a cooperar “de acordo com os princípios de Israel” e em consonância com a visão de Trump, sem mencionar a suspensão de ataques. Essa duplicidade reflete o impasse doméstico: de um lado, a opinião pública israelense exausta após dois anos de guerra e ansiosa pela devolução dos sequestrados; de outro, uma coalizão radical que exige a aniquilação total do Hamas e a anexação de Gaza.

O cálculo político é delicado. Se Netanyahu aderir integralmente ao plano, corre o risco de desintegrar sua base e precipitar novas eleições. Se rejeitar ou sabotar discretamente o cessar-fogo, ficará isolado perante Washington, a ONU e as capitais árabes. Analistas israelenses admitem que o premiê tenta ganhar tempo, apostando que Trump não queira manchar sua narrativa de pacificador antes das eleições americanas de 2026.

Nos bastidores, a diplomacia egípcia prepara as negociações do primeiro estágio em Cairo, com a presença de Jared Kushner e Steve Witkoff como enviados de Trump. O cessar-fogo, segundo o plano, só se consolidará após a troca de prisioneiros e a retirada das tropas israelenses para uma linha pré-acordada dentro do território. Mas o desafio será manter a trégua diante da desconfiança mútua e da devastação social: estima-se que mais de 67 mil palestinos tenham sido mortos e 170 mil feridos desde 2023, além de centenas de reféns e desaparecidos.

Em Gaza, o anúncio da trégua provocou esperança e ceticismo. Moradores entrevistados relataram novos ataques aéreos logo após a fala de Trump, o que reforça a sensação de que a paz ainda é um conceito distante. No dia 730 da Guerra em Gaza, o Ministério da Saúde afirma que 66 morreram nas últimas 24 horas em virtude de ataques israelenses.

A proposta americana é vista por parte dos palestinos como uma imposição externa, sem garantias de autodeterminação ou reconstrução justa. Para outros, é o último fio de esperança depois de dois anos de cerco, fome e destruição.

Netanyahu, por sua vez, tenta converter a iniciativa em vantagem política, apresentando o acordo como “vitória diplomática” que devolve reféns e encerra a guerra. Mas as entrelinhas do plano, anistia parcial a combatentes do Hamas, supervisão internacional e ausência de anexação, colidem com a retórica de “vitória total” que sustentou sua narrativa desde o início da ofensiva. Trump, ciente disso, busca capitalizar como mediador global, reposicionando os Estados Unidos como árbitro do Oriente Médio e reabilitando a imagem de Israel, hoje desgastada por acusações de genocídio e crimes de guerra.

Em síntese, o plano de paz de Trump é tanto uma aposta política quanto uma jogada geoestratégica. Se der certo, encerra uma das guerras mais sangrentas da década e redefine o papel dos EUA na região. Se fracassar, ampliará o isolamento de Israel e reforçará a percepção de que o conflito é também interno, entre a sobrevivência de Netanyahu e a exaustão de um país dividido. A paz, neste contexto, depende menos de armas e mais de coragem política.

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