Índice de Tópicos
O presidente Donald Trump desencadeou nesta quarta-feira (4) uma nova série de medidas que acentuam o fechamento dos Estados Unidos ao mundo, aprofundando sua política nacionalista em pleno ano eleitoral para o legislativo. Ao barrar a entrada de cidadãos de 12 países — em sua maioria africanos e muçulmanos —, restringir estudantes estrangeiros da Universidade de Harvard, desmantelar programas globais de saúde e retaliar a imprensa pública internacional, a Casa Branca coloca os EUA em rota de colisão com o multilateralismo e os direitos humanos.
Novo banimento de viagens atinge 12 países
A nova proibição de viagens anunciada por Trump afeta diretamente cidadãos do Afeganistão, Irã, Líbia, Somália, Sudão, Iêmen, Chade, República do Congo, Eritreia, Guiné Equatorial, Haiti e Mianmar. A justificativa? Supostos riscos à segurança nacional após um ataque em Boulder (Colorado), cuja autoria é atribuída a um imigrante egípcio.
A medida ecoa o “Muslim Ban” da primeira gestão Trump, mas em escala ampliada e com contornos mais explícitos de discriminação étnico-religiosa. Críticos, como o ACLU e parlamentares democratas, apontam que a política fere tratados internacionais e se baseia em preconceitos generalizantes, não em dados concretos de risco.
Harvard na mira de Trump e Marco Rubio
Outro gesto que acendeu alertas foi o anúncio de que estudantes internacionais da Universidade de Harvard não poderão mais entrar nos EUA. Além disso, o secretário de Estado Marco Rubio foi instado a revogar os vistos de alunos já matriculados. A iniciativa tenta minar a influência global da instituição — berço de elites políticas e acadêmicas — e afugentar o capital intelectual que forma parte vital da inovação nos EUA.
Ataque institucional à Voice of America
No mesmo dia, o governo notificou o Congresso sobre o plano de demissão em massa dos funcionários da Voice of America (VOA), reduzindo sua equipe de 1.400 para menos de 20 pessoas. O argumento oficial é o corte de gastos, mas as entrelinhas revelam um claro intento de silenciar um dos principais veículos de notícias voltados para países sob regimes autoritários.
Comandada agora por Kari Lake, aliada de Trump, a VOA sofre uma asfixia deliberada. Analistas alertam para os riscos de vacância informativa global, especialmente em regiões onde a liberdade de imprensa é frágil. A medida também fere a lei que exige que a VOA seja “uma fonte confiável e consistente de notícias para o mundo”.
A Voice of America é o serviço internacional de radiodifusão do governo dos Estados Unidos, fundado em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, com o objetivo de levar notícias confiáveis e conteúdos informativos a públicos estrangeiros — especialmente em países com liberdade de imprensa limitada ou sob regimes autoritários.
Ela transmite programas em mais de 40 idiomas para cerca de 350 milhões de pessoas no mundo inteiro, via rádio, televisão e internet. É operada pela U.S. Agency for Global Media (USAGM), uma agência federal independente.
Leia também: Elon Musk deixa governo Trump entre aplausos e escândalos
Saiba mais: Trump restabelece tarifaço nos EUA
Sanções contra saúde pública mundial
A política externa trumpista também avança sobre o campo humanitário. A proposta de orçamento enviada ao Congresso elimina recursos para campanhas globais de vacinação contra pólio, sarampo e outras doenças infecciosas. O CDC perderia US$ 230 milhões, e a parceria com a Gavi, aliança que financia imunizações em países pobres, seria encerrada.
O ataque é frontal ao legado do programa PEPFAR, criado por George W. Bush e responsável por salvar mais de 20 milhões de vidas. Cortes de até 50% estão previstos para 2026, incluindo ações contra HIV e malária.
Direito à manifestação sob ameaça
O Departamento de Justiça também protagonizou um capítulo sombrio ao tentar obter mandados judiciais para investigar — e deportar — estudantes que participaram de protestos pró-Palestina em universidades como Columbia. Juízes federais, em quatro ocasiões, recusaram os pedidos, apontando risco de violação à liberdade de expressão. O governo insistiu, chegando a pedir dados de quem “curtiu” postagens nas redes sociais — uma tática que lembra estados policiais.
Reação internacional e impacto eleitoral
As ações de Trump provocaram reações diplomáticas imediatas. Canadá, México, União Europeia e ONGs internacionais condenaram as medidas. Além disso, a ONU e a OMS alertaram para o “efeito cascata” nos esforços de vacinação global e no combate à desinformação em países frágeis.
Internamente, as medidas são vistas como tentativa de galvanizar a base trumpista, com foco no discurso de “América para os americanos”, mesmo à custa de romper com instituições históricas e tratados multilaterais. O impacto disso na corrida presidencial de 2026 ainda é incerto — mas reforça o estilo autoritário que caracteriza o segundo mandato de Trump.
A ofensiva em várias frentes — migração, educação, saúde e imprensa — marca uma escalada preocupante do isolacionismo trumpista. O que se apresenta como “segurança nacional” parece, na prática, um ataque à pluralidade, ao conhecimento e à solidariedade internacional. Resta saber se as instituições resistirão à pressão ou se a era Trump 2 consolidará um novo paradigma autoritário nos EUA.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




