O governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), chega à reta final das convenções partidárias acumulando impasses na montagem de sua sucessão. Em menos de duas semanas para o prazo final de registro das candidaturas, em 15 de agosto, as articulações do Palácio Iguaçu produziram desgastes internos, romperam alianças históricas e ampliaram o espaço político para o senador Sergio Moro (PL).
O ex-juiz da Lava Jato é o principal beneficiário do errante jogo governista, segundo analistas políticos que frequentam aos domingos o café na feirinha da Praça 29 de Março, centro de Curitiba.
A estratégia de Ratinho Junior para definir seu sucessor tem provocado sucessivas turbulências dentro da própria base governista. Em vez de construir consensos, o governador optou por decisões unilaterais que ampliaram a insatisfação entre aliados e embaralharam a corrida eleitoral paranaense.
O primeiro movimento foi a escolha do secretário Guto Silva (PSD) como nome preferencial ao Palácio Iguaçu, sem negociação prévia com o grupo político que sustenta o governo na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep). A iniciativa provocou desconforto entre lideranças governistas e acabou desgastando uma relação de confiança construída ao longo de anos.
Pouco depois, Ratinho abandonou essa alternativa e passou a defender o nome do secretário Sandro Alex (PSD) como herdeiro político. Novamente, a definição ocorreu sem uma construção coletiva entre os principais dirigentes da coalizão governista, aprofundando o sentimento de que as decisões vinham sendo impostas pelo Palácio Iguaçu ao estilo Nicolás Maduro.
A sequência de movimentos não parou aí.
O governador patrocinou a filiação da jornalista Cristina Graeml ao PSD, decisão que abriu uma frente de atrito com o prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel (PSD), principal liderança eleitoral do partido na capital, responsável pelo maior colégio eleitoral do estado. A chegada da nova filiada alterou o equilíbrio interno da legenda justamente no município onde o PSD concentra uma de suas maiores bases políticas. Graeml e Pimentel tiveram um duríssimo segundo turno nas eleições de 2024.
Ao mesmo tempo, o partido perdeu dois de seus quadros mais relevantes.
O ex-prefeito de Curitiba Rafael Greca deixou o PSD e encontrou espaço para compor como candidato a vice-governador a chapa pelo MDB. Já o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Alexandre Curi (Republicanos), também rompeu com o projeto do PSD e passou a construir uma candidatura própria ao Senado, elevando o custo político das negociações conduzidas pelo governador.
A situação tornou-se ainda mais delicada com a entrada do ex-senador Alvaro Dias (MDB) na disputa pela Câmara Alta. O anúncio embaralhou novamente o cenário, uma vez que Alexandre Curi mantém a expectativa de representar sozinho o campo governista na eleição para o Senado.
Enquanto o grupo governista busca acomodar interesses conflitantes, a extrema direita bolso-lavajatista tira proveito da confusão. Moro está rindo à toa, o que consagra o empresário Fabio Aguayo como articulador do ano.
Nesta segunda-feira (3), durante a convenção estadual do Republicanos, a expectativa é que o partido apresente um novo ingrediente à sucessão estadual: a reaproximação com o ex-senador Osmar Dias, filiado à legenda, para formar uma chapa ao lado de Alexandre Curi na disputa pelo Senado. Caso a composição avance, o Republicanos ampliará a pressão nas negociações da sucessão.
Independentemente das convenções, a legislação eleitoral estabelece o dia 15 de agosto como prazo final para o registro das chapas na Justiça Eleitoral. Até lá, permanecem abertas as negociações, substituições e acomodações entre partidos.
Restam doze dias para que o quebra-cabeça eleitoral seja montado.
Nesse intervalo, alianças ainda podem ser revistas, candidaturas podem mudar de posição e novos acordos podem surgir. O cenário permanece em movimento, e a sucessão construída por Ratinho Junior segue longe de alcançar estabilidade.
O resultado prático, até o momento, é que as dificuldades de articulação do grupo governista acabam ampliando o espaço político de Sergio Moro, que observa a fragmentação dos adversários enquanto consolida sua própria estratégia para a disputa ao Palácio Iguaçu.
O arroz doce da sucessão ainda está no fogo, e, no ritmo das articulações, pode azedar antes mesmo do registro definitivo das candidaturas.
A conferir.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




