Iêmen entra numa nova fase de fragmentação política após separatistas do sul anunciarem um plano formal para criar um Estado independente até 2028. O movimento prevê uma transição de dois anos e a realização de um referendo, reacendendo o risco de divisão do país em meio à guerra civil e à disputa entre potências regionais.
Separatistas do sul anunciam transição rumo à independência
O Conselho de Transição do Sul (STC), principal força separatista do sul do Iêmen, confirmou que dará início a um período de transição de dois anos com o objetivo de restaurar um Estado independente na região. Ao final do processo, o grupo promete submeter a decisão a um referendo popular previsto para 2028.
O anúncio ocorre após uma ofensiva relâmpago que permitiu ao STC assumir o controle de áreas estratégicas no sul do país, incluindo partes da província de Hadramaut. O avanço militar elevou a tensão com o governo central, reconhecido internacionalmente, e provocou novos confrontos armados.
Um país que pode voltar a ser dividido
Entre 1967 e 1990, o Iêmen esteve dividido entre norte e sul, com trajetórias políticas distintas. A reunificação não eliminou rivalidades históricas, que se agravaram com a guerra civil iniciada em 2014. A iniciativa separatista reacende o cenário de ruptura territorial, agora em um contexto ainda mais instável.
O STC afirma que a independência poderá ser declarada de forma imediata caso seus territórios voltem a ser atacados. A retórica pressiona não apenas o governo iemenita, mas também os aliados regionais envolvidos no conflito.
Disputa entre aliados do Golfo
O movimento separatista conta com apoio dos Emirados Árabes Unidos, enquanto o governo central do Iêmen é sustentado principalmente pela Arábia Saudita. O choque de interesses entre esses dois países do Golfo expõe fissuras na coalizão que combate os rebeldes houthis, apoiados pelo Irã.
Nos últimos dias, ataques aéreos atribuídos à coalizão liderada por Riad deixaram dezenas de mortos, segundo relatos locais, ampliando o custo humano de uma guerra que já provocou uma das maiores crises humanitárias do mundo.
O que está em jogo
A proposta de independência do sul não é apenas um rearranjo interno. Ela pode redesenhar o equilíbrio geopolítico na Península Arábica, afetar rotas estratégicas de energia e aprofundar a instabilidade regional. Para a comunidade internacional, o risco é legitimar uma fragmentação armada sem um processo político amplo e negociado.
A história recente do Iêmen mostra que soluções impostas pelas armas tendem a prolongar conflitos, não a resolvê-los.
O plano separatista do sul do Iêmen revela que a guerra civil entrou em uma etapa mais complexa, em que a unidade nacional já não é consenso nem entre antigos aliados. Sem mediação internacional efetiva e diálogo inclusivo, o referendo prometido pode se tornar mais um capítulo de um conflito sem fim.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.

