O PP, comandado por Ciro Nogueira, dá sinais de que tende a “lular” na eleição presidencial de 2026 ao priorizar sua sobrevivência regional, especialmente no Nordeste, e ao evitar o desgaste interno que uma adesão formal a Flávio Bolsonaro provocaria na federação União Progressista. A senha veio do noticiário de bastidores em Brasília: o senador procurou o presidente Lula para negociar espaço no Piauí e acenou com “neutralidade” nacional, o que, na prática, isola o bolsonarismo no Planalto.
A conversa atribuída a 23 de dezembro de 2025, na Granja do Torto, com presença do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), foi tratada como movimento de reaproximação e cálculo eleitoral no Piauí, onde Lula venceu com 76,8% dos votos válidos no 2º turno de 2022. Ciro Nogueira nega o encontro, mas relatos foram confirmados a jornalistas por múltiplas fontes.
Centrão não compra briga com Lula sem custo
O Blog do Esmael vem apontando, ao longo de 2025 e no início de 2026, o dilema estrutural do Centrão: enfrentar a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) custa caro por dois motivos.
O primeiro é a guerra interna. Em partidos como PP e União Brasil, apoiar ou combater Lula mexe com cargos, emendas, alianças estaduais e, sobretudo, com a autoridade dos “mandachuvas” que controlam diretórios, fundo e tempo de TV.
O segundo é aritmética eleitoral. A base municipal dessas legendas é governista por vocação e, no Nordeste, frequentemente lulista por identidade política e por redes locais de apoio.
Nesse contexto, a proposta de “trocar apoio no Piauí por independência” soa como vender terreno na lua. A “independência” já era a tendência natural da federação, inclusive por sobrevivência, e não por altruísmo programático.
União Progressista nasceu grande e já nasceu dividida
A federação entre PP e União Brasil foi protocolada no TSE em dezembro de 2025 e ainda depende de validação para operar plenamente em 2026, com impacto direto em estratégia nacional e palanques estaduais.
Nos bastidores, até a marca virou problema. Em 2 de fevereiro de 2026, houve movimentação para ajustar identidade visual e destravar o registro no TSE, num sinal de que a máquina da federação está mais preocupada com engenharia jurídica e sobrevivência do que com um projeto presidencial orgânico.
Aí está o ponto: federação grande não significa federação coesa. E, sem coesão, a tendência é “liberar geral” na Presidência, enquanto cada estado resolve sua própria conta.
Caiado rifado, PSD agradece, bolsonarismo paga a conta
O União Progressista já produziu um efeito concreto na disputa presidencial: o governador Ronaldo Caiado, então no União Brasil, deixou a sigla e se filiou ao PSD para tentar viabilidade nacional fora do labirinto federativo. A saída reorganiza o tabuleiro da centro-direita e expõe a dificuldade do bloco em sustentar um nome próprio competitivo.
Quando um presidenciável “sai pela porta” para buscar abrigo em outro partido, a mensagem para Flávio Bolsonaro é cristalina: o Centrão não vai amarrar o próprio pescoço numa candidatura que aprofunde divisões internas e ainda azede pontes com o governo federal.
Moro vetado no PP, Ratinho Jr. respira, Lula observa
No Paraná, o roteiro é ainda mais pedagógico. O PP estadual vetou a candidatura de Sergio Moro ao governo em dezembro de 2025, aprofundando o racha com o União Brasil dentro da federação.
Esse veto conversa diretamente com a engenharia política do estado: agrada o deputado federal Ricardo Barros (PP-PR), alinha o tabuleiro com o governador Carlos Massa Ratinho Junior (PSD-PR) e, por consequência, reduz o espaço de um adversário histórico de Lula desde a Lava Jato.
No Blog do Esmael, já registramos a articulação que trata Rafael Greca como alternativa para substituir Moro no arranjo do União Progressista no Paraná, após o veto do PP.
Bastidores com cheiro de “neutralidade pró-governo”
Na política real, “neutralidade” quase nunca é neutra. Ela costuma significar liberdade para prefeitos, deputados e senadores seguirem o vento mais forte, e o vento mais forte, num sistema de presidencialismo de coalizão, costuma soprar do Palácio do Planalto.
Se Ciro Nogueira busca um pacto no Piauí, num estado de hegemonia lulista, e oferece distância de Flávio Bolsonaro, o recado é que o bolsonarismo serve como moeda de troca, não como destino.
E é por isso que a tal “independência” se aproxima mais de um desembarque controlado do que de um rompimento corajoso.
A fatura da realidade chega para o bolsonarismo
O União Progressista pode até ensaiar discursos “equilibristas”, mas a política de 2026 tende a empurrar PP e União Brasil para uma zona confortável: nem abraçam Lula formalmente, nem compram guerra contra ele. Quem paga a conta é Flávio Bolsonaro, que vê o Centrão operar como sempre operou, perto do poder, longe de aventuras.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




