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Nos bastidores de Curitiba, nesta semana, costurou-se muito mais que o lançamento de um livro ou uma visita protocolar. O ex-ministro Aldo Rebelo, nacionalista por vocação e camaleônico por prática, percorreu discretamente os três poderes informais do Paraná: o político, o empresarial e o jurídico. O que parecia uma turnê literária foi, na verdade, parte essencial do chamado “Plano A” do bolsonarismo para 2026 — e Aldo está no centro da engrenagem.
A estratégia foi revelada pelo jornalista Esmael Morais durante entrevista ao Jornal da Fórum, na sexta-feira (16), após dias de apuração nos bastidores do poder. Segundo ele, a movimentação em Curitiba articulou diretamente Jair Bolsonaro, Aldo Rebelo e Ratinho Júnior numa engenharia jurídica e política inspirada na tática petista de 2018, quando Fernando Haddad substituiu Lula após a impugnação de sua candidatura.
Aldo fez “barba, cabelo e bigode” em Curitiba

A semana de Aldo na capital paranaense foi milimetricamente desenhada: reunião secreta com o governador Ratinho Júnior (PSD) no Palácio Iguaçu; encontro protocolar com o prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel (PSD); almoço político com a cúpula da OAB-PR, presidida por Luiz Fernando Casagrande Pereira — justamente o advogado que arquitetou juridicamente a candidatura de Lula-Haddad em 2018.
[Em maio de 2018, o Blog do Esmael publicou “Ninguém pode aprisionar a candidatura de Lula” — parecer de Luiz Fernando Casagrande Pereira — que sustentava o direito que o PT tem de requerer o registro da candidatura, mesmo com Lula preso.]
Além disso, Aldo participou de uma rodada de conversa com parte do PIB paranaense — empresários e juristas — onde se resgatou o mito do Caminho de Peabiru, uma trilha pré-colombiana que ligaria o litoral do Paraná ao Pacífico, num paralelo simbólico com a Rota da Seda chinesa, respeitadas as devidas proporções. O simbolismo da reunião não passou despercebido: tratava-se de um gesto civilizatório, um marco de conexão entre o Brasil profundo e a política externa de um país soberano.
À noite, no luxuoso Graciosa Country Club, Aldo lançou sua nova obra, Amazônia, a Maldição das Tordesilhas, com auditório repleto de líderes liberais e industriais. O evento foi organizado pelo Instituto Democracia e Liberdade (IDL), presidido por Edson Ramon — e incentivado pela FIEP (Federação das Indústrias do Paraná), um dos braços mais fortes do empresariado local, que é presidida por Edson Vasconcelos.
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O plano é antigo, mas a urgência é nova

Segundo Esmael, o “Plano A” do bolsonarismo se baseia na candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência da República em 2026, mesmo diante da altíssima possibilidade de impugnação por inelegibilidade. O ex-presidente, condenado por abuso de poder político, aposta numa tese jurídica arriscada — e Aldo seria o fiador institucional da manobra.
A ideia: registrar a chapa com Bolsonaro na cabeça e Aldo como vice. Caso o Tribunal Superior Eleitoral indefira a candidatura do ex-presidente, Aldo assume a cabeça da chapa, repetindo a estratégia de Lula e Haddad. Ratinho Júnior seria a cereja do bolo: entraria como vice de Aldo, garantindo base no Sul e simpatia empresarial.
O desenho foi compartilhado — com todas as letras — pelo próprio Aldo a interlocutores próximos, segundo apuração do Blog do Esmael. O ex-ministro afirmou que fala “regularmente” com Bolsonaro e que recebeu aval para dialogar com setores variados do espectro da direita. A visita a Curitiba foi apenas um capítulo. O périplo já passou por São Paulo, Rio, Brasília, Maranhão, Santa Catarina, dentre outros estados. Vem mais por aí.
Bolsonaro, Michele e os filhos: veto interno à primeira-dama

A movimentação de Aldo também revela uma peça ausente do xadrez bolsonarista: Michele Bolsonaro. Apesar de figurar nos discursos oficiais como opção de “herança política”, ela enfrenta rejeição dentro do próprio núcleo familiar. Os filhos de Bolsonaro, especialmente Carlos, desconfiam da ex-primeira-dama, conforme relatado em mensagens vazadas pela PF e analisadas por Esmael Morais.
Nas palavras do jornalista: “o veto da família pesa mais do que o apoio público.” Michele não inspira segurança no núcleo duro — e, além disso, carrega um histórico familiar delicado, explorável em campanha.
A premissa do veto de Bolsonaro também é válida para aliados do ex-presidente. Nesses tempos de lacrações nas redes sociais, um “deslike” do bolsonarismo tem mais peso do que uma declaração de voto.
Tarcísio em xeque, Flávio Bolsonaro na manga

Outro nome que derrete dentro do bolsonarismo é o do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. De promissor herdeiro político, passou a ser rotulado de “traidor” após aproximação com João Doria e empresários da Lide, em Nova Iorque, onde costuraram uma candidatura de direita sem Bolsonaro. A ala ideológica do bolsonarismo não perdoa.
Com Tarcísio desidratado e Michele descartada, sobra Flávio Bolsonaro. O senador fluminense é visto por aliados como o plano “familiar” de salvação — alguém que, eleito, poderia conceder indulto ao pai. Mas sua candidatura causaria fraturas dentro do próprio bolsonarismo e tornaria impossível uma composição com setores mais ao centro. O que reforça, de novo, o papel de Aldo como ponte entre mundos.
Aldo é o homem certo para o plano errado?

A pergunta que paira é: Aldo Rebelo tem musculatura para herdar o espólio eleitoral de Bolsonaro? A resposta, por ora, é não. Mas não se trata de votos — ainda. Trata-se de engenharia jurídica, cálculo institucional e narrativa estratégica. Aldo é a face “palatável” de uma direita pragmática que sabe que não pode depender apenas da família Bolsonaro em 2026.
O “Plano A” do bolsonarismo é ousado, tecnicamente viável e politicamente arriscado. Repete a tática do PT, ironicamente, para tentar sobreviver sem Lula — ou, neste caso, sem Bolsonaro.
Se dará certo ou não, só o tempo dirá. Mas uma coisa é certa: enquanto a esquerda debate projetos, a direita já movimenta suas peças no tabuleiro. E o jogo está longe de acabar.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




