Nem Bolsonaro quis Tarcísio como candidato a presidente e o governador de São Paulo saiu chamuscado da aventura nacional, ao voltar da Papudinha afirmando que seu “interesse é ficar em São Paulo”, numa retirada que expõe desgaste político e fragiliza seu palanque para 2026.
O recado veio direto da cela. Jair Bolsonaro, ex-presidente e líder máximo do bolsonarismo, preso na Papudinha por liderar a trama golpista, outrora, bancou de fato o nome de Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) para o Planalto. Mas diante de seu próprio cárcere, preferiu o filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), mesmo a despeito da resistência de setores da direita que viam no governador paulista um nome eleitoralmente mais competitivo contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Tarcísio foi brincar com fogo. Alimentou especulações presidenciais, conversou com líderes nacionais, deixou aliados testarem seu nome. Quando precisou do aval decisivo, encontrou a porta fechada. Bolsonaro não comprou a ideia porque via na candidatura do filho uma janela para antecipar sua soltura da Papudinha.
A visita autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes (STF) serviu mais para selar o recuo do que para abrir caminho. Ao sair da Papudinha, Tarcísio tratou de apagar o incêndio. Declarou apoio explícito a Flávio e reafirmou que disputará a reeleição em São Paulo, discurso que tenta reconstruir coerência após meses de ambiguidade.
O problema é o custo político. Ao flertar com a Presidência e recuar sob pressão, o governador se expôs à desconfiança de aliados e adversários. Na direita, ficou a leitura de que Tarcísio não controla o próprio destino. No bolsonarismo raiz, consolidou-se a ideia de que ele deve obediência ao clã. Além disso, o governador paulista flertou com a ideia de um bolsonarismo sem Bolsonaro.
Em São Paulo, o cenário também endurece. Ao voltar para a disputa estadual, Tarcísio corre o risco de enfrentar um campo progressista mais coeso do que a direita. O PT e aliados observam o desgaste do governador e avaliam que a confusão nacional abriu flancos no Palácio dos Bandeirantes, especialmente em temas como segurança, transporte e serviços públicos.
Enquanto isso, a direita se fragmenta. Além de Flávio Bolsonaro, surgem Ronaldo Caiado (PSD-GO), Ratinho Junior (PSD-PR) e Eduardo Leite (PSD-RS), cada um puxando um pedaço do eleitorado conservador. O resultado é um cenário embaralhado, sem comando único.
Ao final, a cena da Papudinha sintetiza o momento. Tarcísio entrou como possível presidenciável e saiu como cabo eleitoral do filho 01. Nem Bolsonaro quis Tarcísio candidato. O governador volta a São Paulo menor do que saiu, com a missão de recompor autoridade e explicar ao eleitor por que quase deixou o estado para uma aventura que não se confirmou.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




