Início / brasil

Lula e Trump reabrem negociação, mas tarifa de até 37,5% continua sobre produtos brasileiros

Índice de Tópicos

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conversou por telefone por cerca de 1h20 com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nesta sexta-feira (21), e classificou como infundadas as alegações usadas por Washington para justificar o novo tarifaço contra produtos brasileiros. Trump sugeriu que os negociadores dos dois países retomem as conversas, reabrindo oficialmente uma frente de negociação, mas sem anunciar qualquer suspensão ou redução das tarifas, que chegam a 37,5% para parte das mercadorias brasileiras.

A conversa representa uma mudança de fase no conflito comercial. Depois da escalada tarifária e da abertura de mecanismos de contestação pelo Brasil, os dois governos voltam a colocar a negociação bilateral no centro da estratégia.

Lula defendeu durante a ligação que o caminho para resolver o impasse é o diálogo e afirmou que as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos são infundadas. Segundo relatos sobre a conversa, entre os argumentos questionados pelo presidente brasileiro estão acusações relacionadas a comércio digital, propriedade intelectual, corrupção, desmatamento, etanol e trabalho forçado.

Trump, por sua vez, não anunciou uma redução imediata das tarifas. A iniciativa concreta atribuída ao presidente americano foi sugerir que os negociadores dos dois países retomem as tratativas, com a possibilidade de uma reunião presencial em breve.

Tarifa continua valendo

A retomada do diálogo não altera, por enquanto, a estrutura tarifária em vigor.

O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) informou que os Estados Unidos estabeleceram duas sobretaxas adicionais contra produtos brasileiros: uma de 25%, específica para o Brasil, e outra de 12,5%, decorrente de uma investigação sobre trabalho forçado que alcançou outras economias. Quando as duas incidem sobre o mesmo produto, a sobretaxa acumulada chega a 37,5%.

Segundo o levantamento oficial do governo brasileiro, 16,5% das exportações brasileiras para os Estados Unidos estão sujeitas simultaneamente às duas medidas. Isso representa aproximadamente US$ 6,6 bilhões com base nos dados de comércio de 2024. Entre os produtos atingidos estão máquinas e equipamentos, diferentes tipos de madeira, gorduras e óleos, calçados, móveis e confecções.

Outros 1,9% das exportações estão sujeitos exclusivamente à sobretaxa de 25%, enquanto 4,7% enfrentam apenas a cobrança adicional de 12,5%. No conjunto, as duas novas medidas alcançam 23,1% das exportações brasileiras para os Estados Unidos.

O próprio governo brasileiro ressalta que 52,7% das exportações para o mercado americano permanecem fora dessas sobretaxas adicionais e das tarifas setoriais da Seção 232. Nesse grupo estão produtos como café, carnes, aeronaves, suco de laranja, frutas, vários produtos químicos e grande parte das exportações de celulose.

O que Trump ofereceu

O resultado concreto da conversa desta sexta-feira foi a reabertura da negociação política e técnica.

Trump sugeriu que representantes dos dois países voltem à mesa e indicou a possibilidade de um encontro presencial entre as equipes. Não houve, porém, anúncio de suspensão, redução ou retirada das tarifas.

Essa distinção é importante. A negociação foi reaberta, mas o tarifaço continua produzindo efeitos sobre os exportadores brasileiros.

O governo brasileiro já havia acionado a Organização Mundial do Comércio (OMC) contra as duas medidas. Em 27 de julho, o Ministério das Relações Exteriores formalizou pedido de consultas com os Estados Unidos, primeira etapa do mecanismo de solução de controvérsias da organização. Brasília sustenta que as tarifas são injustificadas e incompatíveis com as obrigações assumidas pelos Estados Unidos no sistema multilateral de comércio.

Ao mesmo tempo, o Brasil abriu o processo para eventual aplicação da Lei da Reciprocidade, mas o governo vem indicando que a negociação diplomática continua sendo a primeira opção.

O que Lula pediu

Lula buscou convencer Trump de que as razões utilizadas para impor as tarifas não correspondem à realidade brasileira e prejudicam os dois lados da relação comercial.

O presidente brasileiro também defendeu a manutenção de uma relação econômica forte entre Brasil e Estados Unidos e sustentou que o conflito deve ser resolvido por negociação, e não pela escalada das barreiras comerciais.

A conversa também tratou de segurança e combate ao crime organizado. Lula apresentou ações brasileiras nessa área e criticou a decisão americana de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Trump sinalizou interesse em ampliar a cooperação no combate ao crime organizado.

Quem vai negociar

A retomada deverá recolocar no centro da mesa os grupos técnicos criados pelos dois governos.

Do lado brasileiro, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, o Ministério das Relações Exteriores e a equipe econômica já participam das negociações. O ministro Márcio Elias Rosa vinha mantendo reuniões com o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, no âmbito do grupo de trabalho bilateral criado após o primeiro encontro entre Lula e Trump, em 7 de maio.

Greer é o representante de Comércio dos Estados Unidos e interlocutor direto do governo americano nas negociações tarifárias. Do lado brasileiro, Márcio Elias Rosa tem sido o principal interlocutor técnico-comercial, em coordenação com o Itamaraty e outros integrantes do governo.

O histórico das conversas mostra que não será uma negociação simples. Antes da entrada em vigor das sobretaxas, Brasil e Estados Unidos já haviam realizado reuniões sobre comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal.

Paraná entra na conta

O Paraná tem interesse direto na retomada das negociações.

Estimativa da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep) aponta que aproximadamente 75% das exportações industriais paranaenses para os Estados Unidos ficaram sujeitas à tarifa adicional de 25%. Em 2025, as vendas da indústria do Estado para o mercado americano somaram cerca de US$ 1,3 bilhão.

A exposição paranaense é particularmente relevante em setores como madeira, móveis, revestimentos cerâmicos e papel. A Fiep alertou que a perda de competitividade pode atingir empresas exportadoras, investimentos, produção e empregos no Estado.

A entidade também vinha defendendo justamente a retomada urgente das negociações entre Brasília e Washington, argumento que ganha novo peso com a conversa entre Lula e Trump.

Produtos como madeira serrada, compensados, molduras, portas, parte dos pisos de madeira, móveis, revestimentos cerâmicos e papel estão entre os itens paranaenses apontados pela Fiep como mais expostos à sobretaxa.

Ao mesmo tempo, alguns produtos paranaenses ficaram fora da cobrança de 25%, entre eles tilápia, café solúvel, mel e couro, segundo levantamentos divulgados pela federação.

A negociação começa com a tarifa na porta

A ligação entre Lula e Trump abre uma nova janela diplomática, mas não encerra o conflito comercial.

O dado objetivo desta sexta-feira é que os presidentes voltaram a conversar diretamente e Trump sinalizou a retomada das negociações. O dado igualmente objetivo é que as tarifas continuam valendo e que parte das exportações brasileiras segue sujeita a uma sobretaxa de até 37,5%.

Para o Paraná, a questão é ainda mais concreta: enquanto Brasília tenta reduzir as barreiras em Washington, a indústria paranaense continua enfrentando uma cobrança que, segundo a Fiep, alcança cerca de três quartos de suas exportações industriais destinadas aos Estados Unidos.

A próxima etapa será medir se a reabertura do diálogo produzirá uma mudança efetiva nas tarifas ou apenas prolongará uma negociação que já atravessou meses de impasse.

Siga acompanhando pelo Blog do Esmael as atualizações sobre tarifaço, eleições 2026, bastidores do poder e da política.