O governo iraniano começou a cobrar pedágio de embarcações no Estreito de Ormuz e afirmou já ter recebido a primeira receita dessa passagem, num corredor que movimenta cerca de 20 milhões de barris por dia e algo como um quarto do petróleo transportado por mar no mundo. A ironia bateu no Paraná porque, em 12 de março, foi assinada a concessão do Canal da Galheta, acesso ao Porto de Paranaguá (APPA), também ancorada em tarifa paga por quem usa a infraestrutura aquaviária.
No caso paranaense, o contrato prevê R$ 1,23 bilhão em investimentos ao longo de 25 anos para dragagem, manutenção e gestão do canal. Traduzindo: o estado terceirizou a porta d’água de Paranaguá e manteve a lógica da cobrança, ainda que com desconto inicial de 12,63% sobre a tarifa de referência.
A Portos do Paraná informou, ainda na fase de homologação, que a concessionária fará a cobrança da tarifa de uso da infraestrutura paga pelas embarcações que acessam os portos. O texto oficial diz também que a operadora só poderá receber a tarifa completa e pedir reajustes graduais depois de cumprir o cronograma de melhorias previsto no edital e no contrato.
O contrato do Canal da Galheta foi assinado, a tarifa está prevista e os investimentos foram anunciados, cabendo ao governador Ratinho Júnior (PSD) a implantação do primeiro pedágio marítimo do Brasil.
A piada pronta engrossa porque Ratinho escolheu em 13 de abril o deputado federal Sandro Alex (PSD), ex-secretário de Infraestrutura e Logística, como nome do grupo para a sucessão no Palácio Iguaçu. Sandro é o rosto mais visível da política de obras e concessões do governo, justamente a área em que o pedágio segue como palavra tóxica nos usuários de rodovias.
Tóxica por motivo bem concreto. No Sudoeste do Paraná, um caminhão graneleiro de sete eixos paga mais de R$ 800 em pedágio para percorrer cerca de 620 quilômetros até o Porto de Paranaguá, segundo cálculo de transportadores. Em crítica já conhecida no agro, o cooperativista Dilvo Grolli resumiu a bronca dizendo que o Paraná pagou “um dos pedágios mais caros do mundo”.
Em Ormuz, a escala é planetária. A Reuters informou nesta quinta-feira (23) que, com a nova escalada no estreito, o Brent saltou de US$ 72 para US$ 102 por barril; somado à cobrança iraniana, isso pressiona frete, seguro marítimo e custo da energia. Quando um gargalo estratégico vira cancela, a conta não fica no mapa, ela vai parar no diesel, no transporte e no bolso.
Ratinho Junior certamente dirá que Paranaguá não é Ormuz. Ninguém está confundindo geopolítica com concessão portuária. Mas o constrangimento político está armado: no mesmo abril em que o Irã transforma um estreito em praça de cobrança, o governador paranaense põe na vitrine um candidato identificado com a era do pedágio.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




