A prefeita Elizabeth Schmidt (União Brasil) viu a greve dos servidores municipais de Ponta Grossa ser suspensa nesta segunda-feira (4) após uma decisão do Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR) impor multa diária de R$ 20 mil ao sindicato, mas o impasse salarial continua vivo na maior vitrine administrativa ligada ao senador Sergio Moro (PL) no Paraná.
O movimento começou na manhã desta segunda, em frente à Prefeitura, e foi desmontado no início da tarde. O Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Ponta Grossa (SindServPG) informou que recuou depois de ser notificado da decisão judicial.
A paralisação não terminou por acordo. Terminou porque a multa tornou a manutenção da greve mais arriscada para o sindicato e para a direção da entidade.
Segundo a apuração publicada pelo portal Mareli Martins, a Prefeitura também protocolou novo pedido para aumentar a pressão financeira. A multa poderia chegar a R$ 100 mil contra dirigentes sindicais caso o movimento fosse mantido.
O presidente do SindServPG, Luiz Eduardo Pleis, disse que a suspensão foi uma medida de cautela enquanto a assessoria jurídica tenta reverter a situação. Ele afirmou que os trabalhadores buscarão retomar o direito de greve dentro dos limites legais.
A pauta dos servidores tem números claros. A categoria reivindica reajuste salarial de 8% e vale-alimentação de R$ 800. A proposta da Prefeitura, rejeitada em assembleia, prevê 5% de reajuste em duas parcelas e vale de R$ 650.
Antes da contraproposta, os servidores pediam 15% de reajuste e vale-alimentação de R$ 900. A redução da pedida não destravou a negociação.
A Prefeitura sustenta que a decisão judicial reconheceu indícios de ilegalidade no movimento anunciado para 4 de maio. A gestão também alegou necessidade de manter serviços públicos e evitar bloqueios ao acesso de servidores não grevistas e da população.
Do lado sindical, a leitura é outra. A categoria acusa a administração municipal de usar a Justiça para esvaziar a greve e intimidar os trabalhadores. Essa é a posição do sindicato, não uma conclusão definitiva do TJ-PR.
O conflito chegou à Câmara Municipal no mesmo dia. O presidente da Casa, vereador Júlio Kuller (PL), suspendeu a sessão ordinária depois de protestos de servidores que tentavam usar a tribuna por meio de representantes do SindServPG.
Kuller negou o pedido sob o argumento de que seria necessária inscrição prévia. A Câmara afirmou em nota que a Tribuna Livre depende de requerimento antecipado e que a sessão foi encerrada por questão de ordem e segurança.
A Casa convocou nova sessão para esta quarta-feira (6). O sindicato poderá usar a tribuna se cumprir o procedimento previsto no regimento.
É aqui que a greve deixa de ser apenas uma disputa salarial. Ponta Grossa tem 375.632 habitantes, segundo o IBGE, e aparece como quarto município mais populoso do Paraná. Não é uma prefeitura pequena no mapa eleitoral do estado.
Para Moro, Ponta Grossa virou peça sensível. A prefeita Elizabeth acompanhou a filiação do senador ao PL em Brasília, declarou apoio a Flávio Bolsonaro na corrida presidencial e passou a orbitar o projeto eleitoral da direita para 2026.
As fontes locais registraram que Elizabeth avaliava seguir Moro rumo ao PL, após as eleições de 2026. Por isso, a crise deve ser tratada como desgaste numa gestão aliada ao PL de Moro, não como gestão oficialmente do PL.
Essa diferença importa. O fato político não depende da ficha partidária estar assinada. Ponta Grossa é a vitrine administrativa de grande porte mais visível do morismo no Paraná, e crise com servidor em cidade grande costuma atravessar gabinete, Câmara, bairro, família e urna.
Se a negociação avançar, Elizabeth pode vender capacidade de controle. Se a Prefeitura insistir apenas na multa e na pressão judicial, a oposição terá um caso concreto para dizer que o campo de Moro fala em gestão, mas tropeça quando precisa negociar com trabalhador.
Não há prova de que a greve tenha sido organizada com objetivo eleitoral, como alegaram os aliados de Moro. O que existe é um conflito real, com salário, vale-alimentação, decisão judicial, protesto na Câmara e uma administração municipal colada ao projeto estadual do senador.
Para os servidores, o desafio é reorganizar a pressão depois da proibição judicial. Para Elizabeth, é impedir que Ponta Grossa vire sinônimo de impasse. Para Moro, é evitar que sua principal vitrine administrativa em cidade grande chegue a outubro marcada por desgaste social.
A greve foi suspensa, mas a pauta que levou os servidores à rua continua sem resposta. Em Ponta Grossa, cada novo passo da Prefeitura e do sindicato terá leitura eleitoral no Paraná.
Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.
Leia também no Blog do Esmael: TJPR trava cassação de Renato Freitas e suspende votação marcada pela Alep; General Silva e Luna irrita aliados de Moro ao posar com Gleisi; Moro vira fantasma no corredor do Iguaçu

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




