O New York Times confirmou nesta quarta-feira, 28 de outubro, que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) desembarcou em Miami. O jornal americano ouviu um funcionário do governo dos Estados Unidos e publicou que o brasileiro deixou o avião pouco depois das 9h30 no horário local, 10h30 em Brasília, no aeroporto executivo de Opa-locka, acompanhado da mulher e das duas filhas.
Segundo o relato publicado pelo Times, imagens de vídeo mostram o grupo saindo da aeronave e sendo conduzido a um SUV poucos minutos depois, protegido por guarda-chuvas. A chegada ocorreu cerca de dez minutos antes da previsão que os monitores de voo indicavam, 10h39. O jornal não informou a categoria dos vistos nem se o senador prestou qualquer declaração ao desembarcar.
O Departamento de Estado havia informado na terça-feira, 27, que concederia vistos a Flávio Bolsonaro e à família. Um alto funcionário da pasta falou ao Times sob condição de anonimato. O New York Times registra que a ajuda do governo americano pode aumentar a tensão entre a administração de Donald Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que acusa o americano de interferir nos assuntos internos do Brasil.
A cronologia da saída já está documentada. Flávio Bolsonaro cruzou a fronteira por terra na noite de 27 de outubro, pela Ponte Internacional Tancredo Neves, entre Foz do Iguaçu (PR) e Puerto Iguazú, na Argentina. A Direção Nacional de Migrações argentina registrou a entrada às 22h50 e o embarque, às 23h30, em um jato da empresa Baires Fly com destino a Guayaquil. No Equador, a aeronave pousou de madrugada, abasteceu e decolou cerca de meia hora depois, segundo repórteres da AFP que acompanharam a escala.
O Times acrescenta um detalhe que a nota argentina não trouxe: o Ministério das Relações Exteriores da Argentina afirmou que a entrada do senador foi tratada pela Presidência de Javier Milei, aliado da família Bolsonaro, e pelas autoridades migratórias. A Polícia Federal argentina, por sua vez, disse não ter registro da entrada dele no país. As duas informações constam da reportagem e não são conciliadas pelo jornal.
Do lado brasileiro, a saída ocorreu depois de a Polícia Federal (PF) cancelar os passaportes do senador, na terça-feira, e de o Brasil emitir um alerta às autoridades migratórias barrando a saída dele do território. O New York Times observa que não está claro como ele conseguiu cruzar a fronteira. Flávio Bolsonaro tem cidadania italiana desde 2023.
A reportagem descreve o senador como filho de um ex-presidente que cumpre longa pena por tentativa de golpe, Jair Bolsonaro foi condenado a mais de 27 anos de prisão e está em prisão domiciliar. Registra também que Flávio perdeu a eleição de domingo para Lula, contestou o resultado, depois concedeu a derrota, mas alegou que o adversário venceu com táticas desleais. Trump, por sua vez, afirmou que a eleição brasileira parece ter sido “fraudada”, sem apresentar provas.
O jornal detalha as investigações. Os passaportes foram cancelados porque o senador é investigado por seus vínculos com um advogado brasileiro acusado de lavar mais de US$ 1 bilhão em um esquema com apostas online, segundo o Times. Em outro inquérito, ele é alvo de apuração sobre milhões de dólares recebidos de um banqueiro envolvido em escândalo de corrupção para financiar um filme sobre o pai. Flávio Bolsonaro nega irregularidades.
A chegada a Miami encerra uma confusão de 24 horas. Na terça-feira, Reuters, BBC, Financial Times e o próprio New York Times noticiaram, com fontes anônimas, que o senador já estava nos Estados Unidos, quando o registro migratório argentino mostra que ele ainda não havia passado por nenhum posto de controle. O governo brasileiro também não tinha confirmação oficial da saída. Nesta quarta-feira, a AFP constatou o desembarque em Opa-locka.
No plano político, a fuga isolou o senador. O PL reconheceu a vitória de Lula em 26 de outubro, o vice Alfredo Gaspar fez o mesmo no dia seguinte e o chefe de campanha, Rogério Marinho, disse em Brasília que não tinha notícia do paradeiro do candidato. Lula chamou a atitude de “vergonhosa” e afirmou que o Brasil é a “segunda pátria” do senador. O mandato termina em 1º de fevereiro de 2027, quando ele também perde o foro por prerrogativa de função.
A cobertura do Blog do Esmael já detalhou a rota completa, o jato e as perguntas sem resposta e a denúncia da deputada argentina Marcela Pagano. O que falta saber segue o mesmo: a categoria dos vistos, a eventual discussão sobre asilo, quem pagou o fretamento e como a fronteira foi cruzada sem registro brasileiro.

Redação do Blog do Esmael.




