Portugal confirma 2º turno presidencial entre Seguro e Ventura

A eleição presidencial em Portugal confirmou um cenário de polarização e alta participação. As bocas de urna e projeções apontam para um segundo turno em 8 de fevereiro entre o socialista António José Seguro e o ultradireitista André Ventura, repetindo no país ibérico a tensão vista em outras democracias europeias entre moderação institucional e radicalização política.

Segundo levantamento da Universidade Católica de Lisboa para a RTP, Seguro aparece com 30% a 35% dos votos, enquanto Ventura oscila entre 20% e 24%. Em terceiro lugar surge João Cotrim de Figueiredo, com 17% a 21%. Na sequência vêm Henrique Gouveia e Melo, com 11% a 14%, e Luís Marques Mendes, com 8% a 11%.

A participação eleitoral foi um dado central da jornada. Pelo menos 45,51% dos eleitores foram às urnas, o maior índice desde 2006 e cerca de dez pontos acima do registrado em 2021, quando a pandemia desmobilizou o eleitorado. O comparecimento reforça o caráter decisivo do pleito, descrito por analistas como o mais equilibrado desde a redemocratização portuguesa.

A ascensão de Seguro é lida como uma virada política. Em meados de 2025, o socialista aparecia com cerca de 10% nas pesquisas, atrás de Ventura, Marques Mendes e Gouveia e Melo. A campanha de perfil moderado, ancorada na experiência institucional e na imagem de fiador da estabilidade democrática, permitiu ao ex-líder do PS ampliar apoios para além da esquerda tradicional e atrair voto útil de eleitores de centro-direita.

Esse movimento ficou evidente no próprio dia da votação. No comitê de Marques Mendes, aliados admitiram que parte do eleitorado social-democrata migrou para Seguro, numa tentativa de barrar a extrema direita. O PSD, liderado pelo primeiro-ministro Luís Montenegro, já anunciou que não fará indicação de voto no segundo turno.

Ventura, por sua vez, confirmou fôlego eleitoral e base mobilizada, especialmente no Algarve. O líder do Chega aposta no discurso de ruptura, com propostas de endurecimento penal, restrições à imigração e revisão constitucional. Em entrevistas, admite usar a “magistratura de influência” da Presidência para pressionar mudanças estruturais, mesmo sabendo que o cargo não governa diretamente.

Em Portugal, o sistema é o semipresidencialismo. O presidente da República não administra o dia a dia do governo, função do primeiro-ministro, mas exerce papel-chave como poder moderador. Cabe ao chefe de Estado vetar leis, dissolver o Parlamento, convocar eleições e nomear o primeiro-ministro, além de comandar formalmente as Forças Armadas. Foi esse desenho institucional, consolidado após a Revolução dos Cravos de 1974, que limitou a concentração de poder no país.

O contraste entre os dois candidatos é também chama a atenção. Seguro construiu a carreira como quadro do Partido Socialista, liderou a oposição durante a crise do euro e defendeu uma postura de responsabilidade institucional diante do programa de austeridade imposto pela União Europeia e pelo FMI. Ventura fez o caminho inverso, emergindo do discurso antissistema e transformando o Chega na segunda maior força parlamentar portuguesa.

Pesquisas divulgadas às vésperas do pleito indicam que, num eventual segundo turno, Seguro venceria Ventura por margem confortável, explorando a elevada rejeição ao líder da extrema direita, estimada em cerca de 60%. Ainda assim, a simples chegada de Ventura à fase final já é vista como vitória estratégica do Chega e fator de pressão permanente sobre o sistema político.

Portugal entra no segundo turno com uma escolha clara entre estabilidade institucional e aventura radical. A votação recorde indica um eleitorado atento e mobilizado, consciente de que o cargo presidencial, mesmo sem governar, define limites, vetos e o rumo democrático do país.

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