A direita já decidiu como pretende disputar a eleição presidencial de 2026: transformando a política em caso de polícia. O gatilho é a nova pesquisa PoderData, divulgada nesta quinta-feira (29), que aponta aumento na percepção de corrupção durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O objetivo não é discutir fatos, mas empurrar a campanha para o campo moral, punitivista e midiático.
O levantamento registra que 49% dos entrevistados dizem acreditar que a corrupção aumentou no atual governo, dez pontos a mais do que em 2024. Trata-se de percepção, não de comprovação, mas isso pouco importa para a engrenagem política que começa a girar.
Nos bastidores, líderes da direita e estrategistas de comunicação avaliam que o tema corrupção ainda é o único capaz de unificar um campo fragmentado e criar desgaste transversal, atingindo Lula e, por tabela, governadores, prefeitos e candidatos aliados nos estados.
A aposta é velha, mas conhecida.
Percepção não é prova
A pesquisa do PoderData não aponta crimes, não identifica esquemas nem relaciona atos específicos ao presidente ou a seus auxiliares. Ela mede sensação social, fortemente influenciada por cobertura midiática, redes sociais e repetição de narrativas.
Ainda assim, setores da velha mídia corporativa tratam o dado como se fosse um diagnóstico institucional, abrindo espaço para editoriais, colunas e manchetes que sugerem retorno a um ambiente de escândalo permanente.
Esse enquadramento interessa diretamente aos oligarcas do sistema financeiro, historicamente associados a agendas de juros altos, austeridade e captura do orçamento público. Quanto menos se fala de emprego, crescimento, crédito e custo do dinheiro, melhor para quem lucra com a instabilidade política.
Casos recentes são usados como pretexto
A ofensiva já começou. A velha mídia corporativa passou a explorar, de forma coordenada, casos recentes sem relação direta entre si para construir a ideia de que o governo Lula estaria cercado por escândalos. Investigações em andamento, disputas administrativas e decisões judiciais preliminares são apresentados como se fossem provas consumadas.
O caso do Banco Master é o exemplo mais visível. Mesmo envolvendo o sistema financeiro, bancos privados, o Banco Central e decisões do STF, o episódio vem sendo enquadrado para sugerir contaminação política do Planalto, ainda que não haja acusação formal contra Lula ou seus ministros.
O mesmo método aparece em recortes sobre CPIs, em vazamentos seletivos e em manchetes que misturam suspeita com culpa. A lógica é simples: repetir a palavra “corrupção” até que ela grude, independentemente dos fatos.
Não se trata de jornalismo investigativo, mas de disputa política travestida de cobertura moral. O objetivo é criar um ambiente de suspeição permanente e empurrar a eleição para a porta da delegacia, onde a direita acredita ter vantagem.
Eleição na chave do punitivismo
A estratégia em curso tenta reeditar o roteiro já visto em ciclos eleitorais anteriores: antecipar condenações no debate público, pressionar por investigações espetacularizadas e criar culpa por associação.
Funciona assim: um dado de percepção vira manchete; a manchete vira “clima”; o clima vira narrativa; e a narrativa vira arma eleitoral.
Nesse modelo, não importa o estágio institucional dos casos citados. Investigação, denúncia e julgamento se misturam, enquanto a política passa a operar como tribunal informal.
O alvo são os estados
Além de Lula, o foco está nos palanques regionais. Governadores, prefeitos e parlamentares aliados ao Planalto sabem que a ofensiva tende a se intensificar justamente onde a disputa é apertada e a direita não tem nomes competitivos.
A palavra “corrupção” vira então um rótulo genérico, pronto para ser colado em qualquer gestão, independentemente de evidências.
É uma tática de desgaste contínuo.
O debate que tentam esconder
Enquanto isso, temas que afetam diretamente a vida da população ficam fora do centro do debate. Juros reais entre os mais altos do mundo, custo do crédito, investimento público, emprego, renda e serviços essenciais desaparecem da agenda.
Não é coincidência.
Levar a eleição para a porta da delegacia é uma forma eficiente de evitar a comparação entre projetos de país.
O que está em jogo
A eleição de 2026 será dura, mas o risco maior é outro: substituir o debate democrático por um ambiente de suspeição permanente, onde a política perde espaço para o linchamento midiático.
Democracia não se decide em manchete policial.
Ela se decide no voto, com informação, contexto e responsabilidade.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




