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Dia da África expõe disputa entre China e EUA

O Dia da África, celebrado neste domingo (25), expõe a disputa entre China e Estados Unidos por influência, infraestrutura e minerais estratégicos no continente. A China segue como principal parceiro comercial da África há 17 anos, com US$ 295 bilhões em trocas em 2024, enquanto Washington tenta ampliar sua presença em setores como defesa e logística.

Com 1,5 bilhão de habitantes e 60% da população abaixo dos 25 anos, a África virou peça central na corrida global por mercados, energia e matérias-primas. O dado ajuda a explicar por que Pequim e Washington disputam espaço em portos, ferrovias, usinas e corredores comerciais.

Um dos exemplos dessa presença chinesa é o Parque Industrial PK24, nos arredores de Abidjan, na Costa do Marfim, construído em parte pela Engenharia de projeto da indústria leve de Nanning, China. Segundo o Observatório da China, de Portugal, a unidade pode processar 50 mil toneladas de cacau por ano e armazenar 140 mil toneladas.

À Agência Brasil, o pesquisador Eden Pereira Lopes da Silva, do Núcleo de Estudos Sobre África, Ásia e Relações Sul-Sul da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), disse que os projetos chineses buscam integrar zonas estratégicas do continente. “Não são projetos apenas de cooperação industrial”, afirmou, ao defender que a lógica também mira corredores comerciais e portos.

Em 2025, a África liderou o destino dos investimentos chineses da Nova Rota da Seda. Dos US$ 213 bilhões aplicados no ano passado, US$ 61,2 bilhões foram para o continente africano, segundo o The Green Finance & Development Center, de Xangai.

A disputa também passa por minerais críticos e terras raras, insumos usados em baterias, celulares, carros elétricos e equipamentos militares. Estimativas citadas no texto apontam que cerca de 30% desses minerais estão na África, com destaque para a República Democrática do Congo, que concentra cerca de 70% da produção de cobalto.

Do lado americano, a nova doutrina de segurança nacional do governo Donald Trump mudou o tom da política para a África, trocando a ênfase em ajuda humanitária por comércio e investimento. O documento da Casa Branca fala em parcerias com países “capazes e confiáveis”, comprometidos em abrir seus mercados para bens e serviços dos EUA.

Washington também reforçou o Corredor de Lobito, em Angola, projeto ferroviário que começou com financiamento chinês. Em dezembro de 2024, o então presidente Joe Biden anunciou US$ 600 milhões para a obra, segundo artigo publicado na revista AIB Insights.

Angola é um caso emblemático dessa disputa. Depois da guerra civil, o país recorreu à China para financiar obras e pagar a dívida com petróleo, relação que por anos concentrou mais de 60% das exportações angolanas para o mercado chinês.

A professora Elga Lessa de Almeida, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), avalia que a relação com Pequim foi menos impositiva do que a presença histórica das potências europeias e dos Estados Unidos. Para ela, os africanos passaram a ter mais margem para definir prioridades e negociar o que precisam.

O continente, porém, não se move apenas pela disputa entre grandes potências. A União Africana, criada em 25 de maio de 1963, mantém a Agenda 2063 e a Zona de Livre Comércio Continental Africana, em vigor desde 2021, como instrumentos para ampliar integração, comércio interno e autonomia política.

No fundo, o Dia da África mostra um continente que tenta transformar a nova disputa global em infraestrutura, indústria e soberania econômica. A briga entre China e EUA existe, mas a conta final será paga pelos africanos se os projetos não gerarem desenvolvimento real.

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