O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, negou que Israel tenha “forçado” Washington a entrar na guerra contra o Irã e afirmou, ao contrário, que “pode ter forçado” a mão do governo israelense, numa tentativa de conter a reação crescente no Congresso e também no próprio campo MAGA.
MAGA é a sigla do slogan “Make America Great Again”, marca política de Donald Trump (Partido Republicano) que virou rótulo do seu movimento nos EUA, reunindo aliados no Congresso, militância digital e uma base eleitoral nacionalista, anti-establishment e desconfiada de guerras longas no exterior.
Trump fez a declaração ao ser questionado por repórteres sobre a pressão de Israel para os ataques conjuntos, iniciados no sábado (28). O republicano sustentou que a leitura da Casa Branca era de que Teerã “atacaria primeiro”, e que a ofensiva teria sido uma ação preventiva.
A crise escalou politicamente em Washington depois que o secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou no Capitólio que o governo já sabia que haveria uma ação israelense e que isso precipitaria ataques contra interesses americanos, argumento usado para justificar bombardeios “preventivos” dos EUA. A fala virou combustível para críticas de democratas e também de setores da direita que vendem o “América Primeiro” como dogma.
No Senado, o democrata Mark Warner disse que não foi apresentada ameaça iminente aos EUA e advertiu que equiparar ameaça a Israel a ameaça imediata aos Estados Unidos empurra o país para “território desconhecido”. Jeff Merkley foi ainda mais direto ao questionar se Israel “decide quando” os EUA vão à guerra.
Até Chuck Schumer, líder democrata no Senado e historicamente alinhado a Israel, classificou as explicações do briefing como “totalmente insuficientes”, dizendo que a apresentação levantou mais perguntas do que respostas. O pano de fundo imediato é a disputa sobre resoluções de poderes de guerra, que miram reafirmar o princípio constitucional de consulta ao Congresso antes de uma guerra.
A pressão não veio só da oposição. Influenciadores e figuras do ecossistema trumpista reagiram às declarações de Rubio como um ponto de ruptura e cobraram recuo e explicação estratégica. Steve Bannon falou em falha de coordenação e exigiu “uma explicação estratégica” sobre o salto para guerra aberta.
O jornalista Tucker Carlson, comentarista conservador ligado ao universo trumpista, virou uma das vozes mais barulhentas contra a guerra, dizendo que o confronto com o Irã não atende a objetivos de segurança nacional dos EUA e que Washington estaria sendo arrastada para um conflito de interesse israelense, com custo em vidas de militares americanos e risco econômico.
Do lado israelense, Benjamin Netanyahu reforçou a narrativa de que a coalizão atual permitiria cumprir um objetivo perseguido há décadas, o que, em Washington, alimenta a leitura de que Israel puxou a corda e os EUA entraram no conflito sem um roteiro claro para o “dia seguinte”.
A controvérsia se agrava num ambiente já contaminado pela queda de apoio a Israel na opinião pública americana após a guerra em Gaza. O jornal britânico The Guardian aponta pesquisas com recuo acentuado do apoio depois da ofensiva israelense, em meio a números de mortos citados na cobertura, um fator que amplia o custo político de qualquer escalada.
O que aparece é um desgaste duplo: Trump tenta sustentar a imagem de liderança soberana, mas tropeça numa contradição central do trumpismo, que prometeu menos guerras e mais “interesse nacional” e agora precisa explicar por que o país entrou de corpo na crise.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




