O risco é a classe dominante

Enio Verri*

A jovem e frágil democracia brasileira passa por pressões extremamente fortes. Menos pela capacidade de Bolsonaro elaborar um plano e de mobilizar forças para suprimi-la, do que pela sua competência em criar crises. Esse é um dos traços mais terríveis da fria psicopatia do presidente. Em meio à catástrofe sanitária que ele negligencia, aposta no caos que o livra de suas responsabilidades. O Brasil é governado por uma pessoa que não tem capacidade de um mínimo de simpatia com o sofrimento de milhões de contaminados, de famintos e de centenas de milhares de famílias destroçadas pela perda de um ente cuja morte poderia ter sido evitada.

Há um sem número de registros históricos em que Bolsonaro aparece expressando todo o seu desprezo pela democracia, pelo contraditório. Não há, portanto, condições de alegar surpresa, caso ele aposte no aprofundamento das crises sanitária, social e econômica para causar ainda mais tumulto e instabilidade. Essa forma de governo é igualmente desprezada pela classe dominante. Ao longo da história, desde 1889, ela esteve à frente de todos os golpes de Estado do Brasil. Se no da República ela foi representada pelo latifúndio, no de 2016, foi quem financiou a interrupção do período em que o país registrou os mais significativos avanços sociais, econômicos, culturais.

O primeiro remédio para tirar o Brasil dessa situação terrível chama-se vacina. Na falta, como as 230 milhões de doses ignoradas por Bolsonaro, auxílio emergencial e lockdown são as medidas que podem proteger a força de trabalho que vai restaurar a economia. Sem ela, será ainda muito mais difícil superar a terrível conjuntura. Há fontes que somam R$ 4,5 trilhões e são suficientes para pagar um valor de auxílio emergencial maior que R$ 600, que permita aos brasileiros uma alimentação digna e a proteção contra a COVID-19. Somente o desprezo de um governante pela população explica a oferta de R$ 250 para quem está sem trabalho, sem comida, sem água.

Quem vive de mentiras, produção de crises e despreza a democracia, é lógico que não respeita a população que governa. Todos os dias, Bolsonaro causa algum constrangimento, quando não comete crimes de responsabilidade. A imprensa comercial esconde, mas o Brasil está diariamente no noticiário internacional como uma ameaça mundial, devido ao total descontrole da pandemia. Faltando medicamentos, sedativos, insumos, oxigênio, e o sistema hospitalar está colapsado, sem UTI para atender a demanda que não para de crescer. Em meio a essa tragédia, no lugar de cuidar da população, o presidente acusa de autoritários os governadores e prefeitos que agem para salvar vidas. Faz provocações e incita a população à uma macabra desobediência.

Bolsonaro e o núcleo mais próximo dele são eminentemente autoritários. A totalidade da sua base parlamentar é cristã, mas defende a tortura e a ditadura. O gabinete do ódio não é uma abstração, mas uma empresa de produção de mentiras, ofensas, disseminação de discórdia. Muito antes de ser presidente, ele já mantinha relações próximas tanto com pessoas envolvidas diretamente com o assassinato da vereadora Marielle Franco, quanto com um líder mafioso, morto num cerco policial, na Bahia. Nesse sentido, causa espanto ver a admiração de setores da sociedade com a postura de Bolsonaro, como se não soubessem quem ele é e sempre foi.

Amanhã faz 57 anos que o Brasil sofreu um golpe que durou 21 anos. Não é uma surpresa ver Bolsonaro surfar em mais uma crise que o livra de suas obrigações. Suas irresponsabilidade e inconsequência esticam a corda e provocam uma tensão sob a qual a opinião pública especula a respeito de um possível golpe de Estado. A declaração do ex-ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, segundo a qual o presidente quer as Forças Armadas alinhadas ao seu governo é infinitamente mais preocupante pelo poder de financiamento, mobilização e ausência de escrúpulos da classe dominante, que propriamente pelo desejo autoritário do incompetente Bolsonaro.

*Enio Verri é economista a professor aposentado do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e está deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores do Paraná.